Cidadania, Relacionamento, Saúde Emocional

SERÁ QUE É VIOLÊNCIA? 18 de maio – Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes

Falar de violência sexual é um grande tabu em muitas sociedades, mobilizando sensações, pensamentos e sentimentos do tipo desconforto, raiva, repulsa, negação, pena entre muitos outros. No entanto, para prevenir é imprescindível romper barreiras, principalmente quando tal violência tem como vítima crianças e adolescentes. Nesse sentido, é necessário compreender que toda forma de violência é concebida como uma relação assimétrica de poder, ou seja, o agressor se considera com maior poder sobre a vítima e a torna um objeto.

O termo abuso é muitas vezes encontrado quando se fala em violência sexual, como sinônimo de violência, no entanto, é um termo mais subjetivo, pois cada um poderá determinar um limite sobre suas condutas e defenderá que essas não foram abusos sexuais, o que mais adiante deste artigo será descrito comportamentos que podem ser considerados “normais” e na verdade são formas de violências. Por isso, nesse artigo será utilizado o termo violência.

Em uma violência sexual, o(a) agressor(a) estimula sexualmente uma criança ou adolescente ou utiliza-as para obter sua própria estimulação sexual. Comumente é ouvido que a criança ou adolescente, principalmente quando a vítima é menina (atente-se: meninos também são vítimas de violência sexual), seduziu o homem, logo não é uma violência, pois houve interesse e escolha feita por elas.

SIM! É UMA VIOLÊNCIA!

Deve-se resgatar que uma criança ou adolescente é um Ser em condição peculiar de desenvolvimento, precisa de orientação e proteção dos adultos, esses devendo impor os limites e o respeito entre o seu corpo e o corpo da criança/adolescente. Quando se fala em sedução da menina para com um homem, nada mais é uma projeção dos desejos sexuais desse adulto.

A violência sexual não é apenas a relação sexual, mas também comportamentos como passar mão nas pernas, observar o corpo despido, pedir que a criança ou adolescente passe suas mãos no corpo do adulto ou qualquer outro ato que mesmo minimamente envolva a sexualidade do adulto e elas podem ocorrer em diversas situações: quando o(a) agressor(a) tem relação consanguíneo, afetivo ou de responsabilidade, é tida como violência sexual doméstica. Nessa circunstância, a violência é praticada por pais ou mães, padrastos ou madrastas, tios ou tias, avôs ou avós, irmãos ou irmãs, entre muitas outras possibilidades de relacionamentos familiares. Se a violência ocorrer por parte de alguém desconhecido ou que não possui relação afetiva com a vítima, será considerada como violência não doméstica ou urbana; e há ainda a exploração sexual, em que práticas sexuais, sejam elas ativas (relação sexual) ou passivas, como vídeos ou fotografias pornográficos, tem como finalidade o ganho de algo em troca, comumente dinheiro, mas podendo ser qualquer outro bem ou favor.

A exploração sexual de crianças e adolescentes é uma indústria bilionária ilegal que existe em todo o mundo, fazendo de crianças e adolescentes objetos sexuais de adultos, colocando em risco sua saúde mental e física, assim como prejudicial o seu desenvolvimento. Prejuízo esse que ocorre nas diversas formas de violência sexual, mas destaco a violência sexual doméstica. O ambiente doméstico é o primeiro espaço social que a criança tem contato na vida, é nela que é projetado a necessidade e o desejo de ser acolhedor, àquele que a leva para aprender como viver em grupo, que vai iniciar a construção de valores, do certo e do errado, em que a criança espera proteção. Muitas vezes esse espaço não é assim e a criança não tem maturidade de fazer essa avaliação e conforme vai tendo relacionamentos violentos, vai considerando que isso é o “esperado”, é o “normal” – crianças muito pequenas são as que mais percebem esse ambiente dessa maneira, ou que não possuem outras alternativas para mudar a situação, logo “acostumando” com o vivido.

Outras vezes, a violência sexual doméstica é percebida pela criança e adolescente como a única forma de dar e receber carinho, foi assim que ela aprendeu e nesse sentindo vai envolvendo outras formas de violências, como a psicológica, mas também a física, afinal esse corpo está sendo agredido impiedosamente.

annie-spratt-458145-unsplash
Foto: Annie Spratt

A presença de ameaças é muito comum e é um agravante para que a criança ou adolescente venha a quebrar o silêncio. O medo é uma consequência dessa situação, mas também o medo de ser incompreendida, das consequências para si e seus familiares e da vergonha da exposição ao falar o que viveu. A culpa também está presente de forma avassaladora, mas vale compreender que ser culpado é para aquele que cabe uma responsabilidade legal e esse sentimento nas vítimas de violência sexual doméstica é porque a prática sexual, mesmo sem sua conivência, tem um envolvimento físico e é esse envolvimento que a faz sentir culpada, além do senso equivocado de responsabilidade, na maioria das vezes imposta pelo agressor.

Por isso, falar muitas vezes é o último recurso para expressar o vivido, mas existem sintomas como maior irritabilidade, agressividade, tristeza, dificuldades de aprendizagem, perda de interesse naquilo que antes despertava prazer, isolamento entre diversos outras reações. Outras formas de expor o vivido é por desenhos e falas não habituais para a idade da criança, como maior interesse sobre aspectos de uma relação sexual. Por vezes, os adultos recebem isso e as repreendem, outras percebem que existe uma violência sexual, mas por mover nelas sentimentos e consequências ainda não toleradas, tendem a negar a realidade da criança e se afastam. Isso ocorre, muitas vezes, porque essa pessoa no passado também foi vitimizada por tal violência e/ou vivencia relacionamento violento, carregando com ela traumas que a impeça de desenvolver sua capacidade protetiva para com as crianças e adolescentes. Todavia, somos os adultos da relação e é nosso DEVER quebrar esse ciclo de violência o quanto antes na vida desses seres pequenos.

Mas, nem sempre quebrar o silêncio irá garantir que a presença de sofrimento termine, é fácil observar que após ter denunciado a violência sexual doméstica, crianças e adolescentes voltam atrás do falado e se posicionam que tudo não passou de uma mentira. Isso não deve ser considerado como a confirmação de uma fantasia ou o quão essa criança ou adolescente quer prejudicar a pessoa agressora. Isso ocorre porque a organização da sua vida ou da sua família mudou, desencadeando situações as quais não estava preparada e não está recebendo suporte para se adaptar a nova realidade; outras vezes recebe a acusação de ser responsável pelo mal estar do agressor e toda a mudança que a denuncia provocou na vida da família, situações essas que a faz sentir mais culpada e para o melhor bem estar do outro, modifica sua fala sobre a violência que sofreu. Observe, novamente essa criança ou adolescente está sofrendo violência, violência psicológica.

É de suma importância que a criança e adolescente que quebra o sigilo seja acolhida e protegida o quanto antes, tenha espaço para ressignificar o vivenciado, expor suas dores, seus sentimentos, angústias e ansiedades. Nem sempre ela conseguirá fazer com as pessoas ou espaços do seu entorno, necessitando de atendimentos de profissionais qualificados para isso, como psicólogos. Ter esse espaço é a possibilidade de vir a resgatar sua autoestima e confiança, além de seguir com dignidade e cidadania.

Para isso, romper o silêncio é apenas o início do processo, é necessário ações em que o agressor seja afastado da vítima e punido, afinal de conta sua ação é um crime hediondo, ou seja, uma ação extremamente repugnante. Mas, todo esse movimento não tem apenas o cunho punitivo para o agressor, a vítima tem ganhos psicológicos com isso, como legitimar que aquilo que viveu foi errado e portanto o culpado está sendo punido, além do fato de prevenir que essa criança/adolescente venha a se tornar um adulto agressor.

É por ser um fenômeno complexo, que acomete muitas vítimas e desencadeia alto nível de sofrimento que pode acompanhar uma vida inteira que existe o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescente. É um dia de luta por aqueles que se percebem indefesos para romper um ciclo de violência. É um dia para provocar empatia para com nossas crianças e adolescentes, de forma que sejam respeitadas e cuidadas para se tornarem pessoas adultas com vida psíquica saudável. É um dia para afirmar e confirmar a capacidade protetiva que um adulto deve ter para suas crianças e adolescentes, uma responsabilidade de todos nós, como determinado no artigo 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente: “é dever da FAMÍLIA, da COMUNIDADE, da SOCIEDADE em geral e do PODER PÚBLICO assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referente à vida(…)”

PsicOn | A psicologia conectada com você.

Autora: Juliana Queiroz

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s