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Educação sexual e HIV: Do pânico a indiferença

O dia 01 de dezembro é mundialmente conhecido como o dia de luta contra AIDS e se você nasceu ou era criança nos anos 80 e 90, com certeza vai se lembrar das campanhas preventivas, das histórias, do medo e das perdas mais famosas. O Brasil revolucionou a epidemia ao oferecer tratamento gratuito para a população soropositiva e tem garantido uma série de direitos sob uma legislação especifica, com isso temos condições favoráveis para diminuir ou eliminar a transmissão do vírus e ainda assim estamos na contramão de outros países com o aumento dos casos, e o que é mais alarmante, entre pessoas muito jovens.

Um ponto importante

A AIDS ainda é uma epidemia, só que perdeu a visibilidade, não falamos mais sobre o assunto, o surto inicial foi controlado, mas a cada ano novos casos são detectados e a doença continua matando e matando mais de um milhão de pessoas todos os anos no mundo todo. (Estimativas ONU)

Do auge da epidemia até os dias de hoje, muitas coisas mudaram na área da saúde, da detecção ao controle e tratamento, mas se tem uma coisa que nos últimos 30 anos ainda é um tabu (e que talvez até tenha retrocedido em alguns aspectos) é a questão da educação sexual, e a sexualidade é parte muito importante da saúde de qualquer pessoa. No Brasil houve um crescimento no número de pessoas que são infectadas entre 15 e 24 anos, porque em algum momento paramos de educar esses jovens sobre os perigos da AIDS e também de outras ISTs, (Infecções Sexualmente transmissíveis) jovens que iniciam a vida sexual cada vez mais cedo, e muitas vezes com pouca ou nenhuma orientação.

Não devemos negligenciar o fato de que a AIDS ainda é uma doença perigosa, que as gerações “pós descoberta”  não  assistiram,  nem vivenciaram o sofrimento terrível e as dolorosas perdas, e que embora exista muita informação disponível, os jovens não tem demonstrado interesse em buscar esse tipo de informação, por isso se faz tão importante deixar a prevenção à AIDS e outras ISTs (Infecções sexualmente transmissíveis) em evidência, conscientiza-los e promover o dialogo para que eles realmente tenham acesso a essas informações,  e na era digital que os influenciadores, os produtores de conteúdo e as plataformas  de mídia social incentivem o diálogo, a intenção não é promover terrorismo ou uma caça as bruxas aqueles que não estão se protegendo, mas tentar entender o porque eles optam  por se colocar em situações de risco e fazer com que realmente tenham acesso as informações e que tomem consciência da gravidade das ISTs .

Educação sexual é a melhor PREVENÇÃO!

A educação sexual no Brasil não é obrigatória na base curricular de ensino, e além do conservadorismo, ainda esbarramos em questões morais e religiosas que só dificultam que se estabeleça um canal de comunicação com os jovens e afinal: Quem fala sobre sexo com os jovens?

De um lado vivemos em um país altamente sexualizado na mídia, músicas, comportamento e etc. Do outro ainda encontramos pais que a priori deveriam orientar os seus filhos, com dificuldade em conversar sobre sexualidade, e que acabam por delegar essa função importantíssima para a escola que por sua vez mal cobre os aspectos biológicos e os educadores também não se sentem preparados o suficiente muitas vezes tratando a sexualidade dentro de padrões que não representam a todos, o que só gera mais conflitos, pois como dito anteriormente, a sexualidade não está nas diretrizes de ensino, o que a torna a tarefa de educação sexual difícil e constrangedora.

Mesmo alguns profissionais de saúde acham que não é de sua responsabilidade falar sobre sexualidade com seus pacientes de qualquer idade, e atribuem aos pais e escola essa função, e nesse jogo de empurra, muitos jovens, (entre eles os que têm pais ultraconservadores) acabam sem nenhuma orientação e não se enganem com a falsa ideia da tutela da fé, nenhum deles está protegido pela moral ou religião, só informação, diálogo e a prevenção pode oferecer alguma proteção.

Educação sexual muito além das questões biológicas trata-se de uma questão de saúde e cidadania e deve sim começar em casa, com as crianças, sim senhoras e senhores CRIANÇAS, respeitando o interesse delas pela sexualidade e respondendo suas perguntas de forma adequada par a idade, mas do modo mais acessível que for possível.

Essa redoma de super proteção ou melhor de omissão de informações com as crianças, também colabora para esse aumento de jovens que são infectados pelo HIV. É uma censura burra, e não estamos protegendo as nossas crianças, como gostam de entoar a plenos pulmões os políticos religiosos, pelo contrário, estamos negligenciando uma parte fundamental da educação delas, estamos colaborando para que se exponham a situações de risco.

Porque os jovens?

Porque a AIDS não assusta mais! Além da aparente falta de interesse em buscar por informações é possível que eles não vejam como algo realmente fatal, a morte já não assusta mais, pois graças ao tratamento com medicamentos antirretrovirais pessoas soropositivas podem ter uma vida normal, o que é ótimo, mas possibilitar que as pessoas que foram infectadas tenham possibilidade de uma vida normal não pode justificar que outras simplesmente ignorem todos os riscos que se expõem em relações desprotegidas, amparadas no clichê de que nunca serão infectadas. No geral pessoas com vida sexual ativa que optam por não usar preservativos perderam o medo, a AIDS não tem mais a “cara mórbida” do inicio, pelo contrário, a ideia de que se forem infectadas poderão fazer tratamento e continuar levando uma vida normal tornou-se um paliativo perigoso.

Deliberadamente ignoram a existência de outras ISTs, as consequências de viver com um quadro que não tem cura, com os efeitos colaterais dos medicamentos que podem variar de organismo para organismo e com o risco de desenvolverem outros problemas de saúde em decorrência da AIDS. Nenhuma doença de caráter crônico é simples, NENHUMA, quem vive com HIV precisa intensificar os cuidados com a saúde diariamente, manter-se sempre saudável, uma vez que o sistema imunológico está enfraquecido.

Grupos de risco

Essa terminologia associa que um grupo está mais propenso a ser infectado dos que os demais, no inicio da epidemia o grupo mais afetado foram os gays, a AIDS foi notoriamente disseminada como um câncer gay, e totalmente ignorado por um tempo por questões morais e religiosas, pois esse grupo sofre até hoje muita discriminação, na década de 80 a população gay estava sendo dizimada, e ninguém se incomodava, milhares de PESSOAS morreram porque o preconceito e a ignorância foram imperativos, ainda se associa essa concepção de que gays estão mais propensos, a realidade é que TODOS nós fazemos parte do grupo de risco, QUALQUER PESSOA de qualquer orientação sexual que mantém relações sexuais desprotegidas está em uma situação de risco.

Preconceito

Viver com uma doença incurável já causa um sofrimento e um impacto psicológico profundo na vida das pessoas, quando além das questões de ordem médica, essa condição vem com essa carga social negativa o sofrimento se torna ainda pior. A ignorância e a discriminação são responsáveis por impedir que pessoas recebam o tratamento por vergonha e medo, o preconceito impede que pessoas possam viver com dignidade e isso sim é grave.

É importante desconstruir esse imaginário catastrófico ao redor das pessoas que vivem com HIV e da própria AIDS, diminuir o estigma e distribuir corretamente as informações, a AIDS não pode voltar a mídia só em reportagens sensacionalistas que reforçam o mesmo pensamento generalizado de 30 anos atrás, não é um castigo dos céus para a imoralidade, não é uma sentença de morte, não é sinônimo de promiscuidade, é uma condição médica que precisa ser tratada assim.

O tratamento avançou muito, e poucos sabem sobre esses avanços, pois ainda se veicula a imagem do terror, o mundo de sombras de quem é soropositivo, a ponto de existir um projeto de lei que criminaliza o HIV, não podemos voltar a idade das trevas, pessoas que vivem com HIV estão construindo famílias, trabalhando, se relacionando com pessoas soropositivas ou sorodiferentes e VIVENDO,  como em qualquer outro tipo de condição crônica, a patologia não define quem a pessoa é, UM VÍIRUS não define quem a pessoa é, porque antes de qualquer condição pessoas são pessoas, são cidadãos, pais, mães, filhos, irmãos, amigos  e não tem condição médica que vá mudar sua condição de ser humano.

A doença mais preocupante e que nem sequer tem tratamento, uma doença social que marginaliza, segrega e mata! Mais fatal que qualquer vírus e potencialmente muito mais destrutivo e letal que o HIV, é o preconceito. E esse sim é um mal que devemos combater.

 

Autora: Cristina Santana

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