Não gosto de palhaços! Nunca gostei e na infância tinha verdadeiro horror dessas criaturas que tantos consideravam adoráveis, alegres e divertidas. EU NÃO! Mas, mesmo assim, lembro-me claramente da minha mãe me levar para ver os palhaços que nas palavras dela eu não precisava gostar, mas tinha que perder o medo, ver e entender que eles não faziam mal algum.

Outra lembrança muito clara, era o medo da minha mãe de água. Ela não fica nada confortável em piscinas, cachoeiras ou algo semelhante, mas sempre levou a mim e aos meus irmãos em piscinas e cachoeiras, onde nos jogávamos felizes e contentes na água, o que causava nela mini infartos, mas ela permitia, para que nós não herdássemos o medo que era dela. Assim como ela, várias mães seguiam esse pensamento de fazer as crianças enfrentarem os próprios medos, com liberdade para correrem, subirem em árvores, com os pés, joelhos e cotovelos ralados. Não era descuido dos pais e sim a forma como eu e milhares de crianças experimentávamos o mundo.

Hoje em dia já não há tanta segurança para uma série de brincadeiras. Se por um lado os dispositivos tecnológicos se tornaram as babás modernas, os pais também têm demonstrado um comportamento polarizado na supervisão adequada de seus filhos. Delegam a esses equipamentos tecnológicos a função de entreter e manter as crianças ocupadas, uma vez que se tem cada vez menos tempo para os filhos ou extrapolam qualquer limite saudável para protege-los, proteger de si mesmos e da condição de ser criança. Condição essa, do ser criança, que do ponto de vista de alguns pais é extremamente perigosa e nociva para a própria criança, pais que convenientemente ignoram que é nesse período da vida que ocorrem os maiores aprendizados.

A grande maioria das crianças não são criadas livres, não podem andar descalças, recebem pouco incentivo à experimentar coisas novas, não devem correr, cair então… Uma tragédia! Um conceito muito atual quando se fala sobre o cuidado exagerado com os filhos é o dos pais helicópteros. Pais que estão sempre orbitando ao redor dos filhos, sempre alertando de perigos eminentes, evitando que cometam erros que são importantes para o crescimento, prejudicando sua capacidade de escolha e autonomia.

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“Todas as pessoas grandes foram um dia crianças, mas poucas se lembram disso” O Pequeno Príncipe

Pais negligentes e pais superprotetores são igualmente nocivos para o desenvolvimento saudável dos filhos. Se por um lado acreditam que ao “não faltar nada” seus filhos crescerão mais “felizes e seguros”, por outro são muito permissivos com certos comportamentos e tem dificuldade em contrariar a criança ou estabelecer limites e ensiná-los a lidar com as consequências de suas escolhas e condutas. Comprometem a educação da criança quando deixam de exigir que elas tenham responsabilidades mínimas, condizentes com sua idade. Uma criança pode ser responsável por algumas tarefas em casa, como guardar os próprios brinquedos, arrumar a cama, tirar o prato da mesa entre muitas outras e isso NÃO é trabalho escravo, tão pouco vai traumatiza-las!

Quando há superproteção, é comum os pais serem permissivos quanto a essas pequenas responsabilidades, porque “coitadinho, são tão pequenininhos!”. Acreditam que ao superproteger seus frágeis e indefesos filhos, estão contribuindo para que eles tenham uma autoestima elevada, cuidando da sua saúde mental, já que a criança não vai passar por frustrações ou enfrentar problemas, pois estão sempre seguros de que os pais os protegem.

O que ocorre é justamente o oposto, crianças precisam de supervisão e cuidado, mas tão importante quanto, é terem desafios e saberem lidarem com frustrações. Se faz necessário lidar com sofrimentos, problemas, responsabilidades e com o novo. O contrário disso é o que colabora para o surgimento de vários transtornos, então ao superproteger e controlar a vida do seu filho, você pode estar ajudando para que ele seja um adulto emocionalmente frágil, dependente, infeliz e inseguro.

 Ninguém quer que as crianças sofram, não é disso que se trata, mas dificuldades fazem parte da vida de qualquer pessoa, inclusive das crianças e o saudável é aprenderem a lidar e supera-las. Você pode e deve apoiar seus filhos nesses momentos, estar junto nas conquistas e nos momentos que ele fracassar, mas não deve tentar antecipar todos os eventos na vida deles, tentar fazer por ou facilitar para eles. Se quando adultos nos sentimos muito bem ao conquistar algo, imaginem a sensação de orgulho da criança ao vencer seus medos e superar obstáculos. Sensação essa que não é experimentada se os pais a isolam numa bolha e vivem a vida dela por ela.

Negligenciar os cuidados com as crianças é diferente e realmente preocupante. Não dar atenção aos perigos a que são expostas é errado, assim como deixa-las pilotarem uma tomada. No entanto, existe uma grande diferença entre supervisionar a criança, às vezes até participando com elas das brincadeiras e controlar a sua vida, superprotegendo e evitando que tenham liberdade para experimentar o mundo, construindo uma redoma impenetrável de cuidados ao redor da criança.

A superproteção constante e tão intensa compromete a capacidade de aprendizagem, uma vez que os pais sempre lhe darão tudo e evitarão seu sofrimento e frustração. As crianças deixam de aprender, inclusive os cuidados básicos e podem até mesmo ter medo de respirar sem que os pais estejam por perto para garantir que é seguro. E que tipo de adultos serão essas crianças tão cercadas de superproteção e censura? Quais os impactos na saúde mental ao de evitar tanto a frustração e envolve-las num plástico bolha emocional?

Evitar “sofrimento” tanto físico quanto emocional acaba favorecendo para que as crianças transformem-se em adultos inseguros, frágeis, que não aprendem a lidar com os problemas e com a vida, favorecendo condições para o surgimento de inúmeras fobias.

Cuidar e proteger é instintivo para alguns pais e mães, e isso é bom! Mas, é muito importante dar espaço para as experiências que a criança perceba como desafiadora ou perigosa (do ponto de vista da criança!), contribuindo tanto para o seu desenvolvimento, quanto para sua aprendizagem de encarar as dificuldades e a superar os obstáculos.

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Autora: Cristina Santana

 

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