Muitos acreditam que envelhecer está atrelado a uma idade cronológica e que inicia por volta dos 55 anos. Infelizmente vou ter que alertar você, tenha qualquer idade, você está envelhecendo! Quem nunca ouviu uma criança dizendo que você é velho e na verdade você nem tinha chegado nos trinta anos? Sim! Para aquela criança você deve ser muito velho. E o curioso é que elas desde cedo também vão compreendendo esse fenômeno. Lembro-me de uma conversa com uma criança dizendo que quando era uma criança pequena tinha acontecido algo que se recordava. Ela tinha apenas cinco anos, mas veja a singela assimilação do processo de envelhecer, uma vez que ela se sentia mais velha frente o fato ocorrido a algum tempo atrás.

Fato é que quando somos jovens e adultos, o envelhecer não se mostra de forma significativa, pois vivencia-se o desenvolvimento crescente do corpo humano. Dentro do processo natural do desenvolvimento, o corpo humano está em uma linha ascendente até os 25 anos e depois ela começa a seguir numa linha decrescente não tão visível por alguns anos. Todavia, envelhecer não está apenas atrelado a uma questão biológica, mas também social. Se você está em uma sociedade capitalista, como o Brasil, irá perceber que existe um outro tempo que é definido como o tempo produtivo do indivíduo. Este tempo está vinculado quando a pessoa tem “melhores” condições para executar seu trabalho, sua profissão. Esse tempo fica entre os 18 e 50, no máximo 60 anos. Muitos já percebem que depois dos 45 anos, não ficam tão bem recebidos como um potencial funcionário para o lugar onde pleiteia uma vaga de emprego.

Outro fator importante é que avançar os 60 anos no Brasil, ou seja, chegar nesse tempo do envelhecer, é algo recente. A não muito tempo atrás, as pessoas morriam por volta dos cinquenta anos e hoje já temos uma expectativa de vida de 75 anos e tende sempre aumentar. Entre muitos significados que essa informação possui, é que a ciência unida a tecnologia avançou, favorecendo que as pessoas alcancem idades mais elevadas, assim como uma qualidade dessa vida satisfatória. Diferentemente dos nossos antepassados que morriam cedo, no que hoje chamamos na fase adulta.

Na soma desses fatores, temos uma perspectiva cultural em que se a idade cronológica já está avançada, o tempo produtivo já está vencido e o corpo já está em declínio, logo essa pessoa não tem tanta importância e a morte já está próxima. Víamos que essas pessoas de fato acabavam se definhando em suas casas, adoecendo e se tornando empecilhos ou fardos para suas famílias, mas era ordem natural da vida, até então aceita, apesar da infelicidade presente.

No entanto, essa ordem natural da vida foi trazendo às pessoas receio e temores em chegar nessa fase, favorecendo o investimento, muito pertinente à época, na crença de que só envelhece quem quer, surgindo uma explosão de possibilidades para manter-se jovem, atraente e interessante. Não olho para esse fenômeno no aspecto negativo, porque foi a partir disso que as pessoas começaram a se cuidar, a se importar com seus corpos e mentes, conseguiram romper com barreiras sociais buscando, nessa fase mais velha da vida, trabalhos que provocassem bem-estar, realizações de sonhos e construção de novos.

Hoje, os idosos contemporâneos estão trabalhando, viajando, encontrando liberdade para se aventurarem naquilo que antes não conseguiam fazer, muitas vezes por tantas responsabilidades, como manter uma casa, educar os filhos, conquistar estabilidade financeira e emocional. Ok! Não posso afirmar que a maioria dos nossos idosos alcançaram essa fase, porque sei que com a imensa desigualdade social que existe, infelizmente, não favorece isso para muitos brasileiros. Sei que muitos idosos trabalham por necessidade e não por prazer, cuidam de seus netos por necessidade dos seus filhos em alcançar minimamente estabilidade financeira para manter suas subsistências e não para curtirem os novos integrantes da família.

Mas, a verdade é que nossos idosos estão vivendo melhores, primeiro porque vivem mais quando comparados aos nossos antepassados, segundo porque possuem mais possibilidades de acessos à médicos, a práticas esportivas, espaços de lazer e diversão, potencializando boa qualidade de vida. Hoje, temos políticas públicas para cuidar do bem-estar físico e emocional sem custo ou com custos baixos. Todavia, ainda observamos que muitos envelhecem doentes e com baixa qualidade de vida, mas a isso não podemos culpabilizar apenas as falhas existentes no âmbito da saúde, por exemplo, porque assim como temos os nossos direitos, temos os nossos deveres e esses são: alimentar-se saudavelmente, praticar atividades físicas e mentais, provocar bem-estar social, buscar uma vida ativa, encontrar sua espiritualidade, encarar as coisas com bom humor, de um jeito leve e descontraído.

Você deve estar pensando que só vejo o lado gostoso do envelhecer. Pois bem, isso não é verdade. Envelhecer tem sim seus aspectos menos interessantes, como o corpo não acompanhar os desejos, menor disposição para algumas ocasiões, dores pelo corpo, mudanças na aparência e sem falar das possibilidades de doenças próprias da velhice. Ser idoso requer outros cuidados e muitas vezes pessoas para cuidá-los. Mas, se você se permite a pensar no envelhecer e até na sua finitude, tomar consciência da importância do autocuidado e fazer dela uma esfera importante para sua vida, as chances de vir a ter uma má qualidade de vida na velhice é menor.

É nessa perspectiva de olhar para o envelhecimento, saber das suas necessidades, da importância do cuidado e proteção, que a ONU (Organização das Nações Unidas) instituiu o dia 1 de outubro como o Dia Internacional do Idoso e esse texto foi a nossa homenagem ao dia e poder levar um momento de reflexão sobre esse fenômeno.

Lembre-se: Quem vive envelhece!

PsicON | A Psicologia conectada com você.

Autora: Juliana Queiroz

Anúncios