A inspiração para esse texto nasceu de uma experiência real e revoltante, ao constatar que estabelecimentos oferecem acesso para cumprir obrigações legais, não porque realmente estejam promovendo acessibilidade e tão pouco inclusão. Diante dessa experiência, voltamos a questionar o nosso olhar sobre o outro, a nossa percepção sobre as deficiências e o quanto realmente estamos engajados no processo de inclusão.

Algumas pessoas ainda não compreenderam que o termo deficiência é o que melhor descreve as pessoas que tem impedimentos de natureza física, intelectual ou sensorial, e que o termo correto para uso é PESSOA COM DEFICIÊNCIA ou PCD. Sim! Esta é a melhor coisa para se dizer de uma pessoa com deficiência, que ela é uma pessoa com deficiência. O que se percebe, de modo geral, é que quando dizemos termos como ‘deficiência’ e ‘inclusão’ parece que estamos prestes a pisar em um campo minado.

Muitas pessoas acreditam que proferir estas palavras é ofender, porém o que vemos dessas mesmas pessoas são olhares assustados ou de dó e muita falta de sensibilidade para a compreensão do outro. São palavras ditas cheia de pausas, tais como “Ela é uma criança es-pe-ci-al”, “Aquela pessoa tem um “pro-ble-mi-nha”, “coitadinho dele”. Pois bem, ninguém quer ser considerado coitadinho. E problemas todos nós temos! Especiais todos nós somos! (Ou deveríamos ser). Inclusive já retratamos isso aqui no texto : https://psiconblog.com.br/2016/09/23/deficiencias-especial-e-ser-gente/

O mais importante para se falar sobre deficiência é dar voz ativa para as pessoas que a vivenciam todos os dias, às pessoas que encaram o estranhamento alheio, que enfrentam barreiras diariamente, que embora encontrem dispositivos, não conseguem usufruir dos mesmos, por exemplo, os ônibus de transporte coletivo em sua maioria são adaptados para receber pessoas com deficiência, na prática chega a ser incomum ver uma pessoa com deficiência o utilizando, e porque isso acontece? A inclusão passa primeiro pela aceitação do outro, com a representatividade da pessoa com deficiência, pois é só trazendo para o centro da discussão, dando visibilidade e transformando o estranhamento em condição cotidiana, como com qualquer outra pessoa, que haverá inclusão de fato. A mídia, as artes, a moda, os programas de TV que atingem grande massa, as propagandas e todos os meios de comunicação são forte aliados nesse processo de transformação cultural do olhar sobre a pessoa com deficiência, da promoção do que realmente é inclusão muito além de dispositivos de acesso.

Incluir, dentre tantos significados em um dicionário, define-se por: integrar, englobar, compreender, incorporar, inserir, juntar, adicionar, etc. Incluir não significa só adaptar ambientes ao colocar rampas ou pisos podo táteis por todos os lugares. Incluir significa também possibilitar o acesso, o aprender, interagir, descobrir o mundo do outro, pelo olhar do outro. É falar de pessoa para pessoa, sem medos ou receios. É conhecer e respeitar o espaço do outro.

Por exemplo, tendemos a julgar uma pessoa emburrada só por ela estar emburrada? Na maioria das vezes não! Ficamos nos perguntando o que aconteceu com o dia dessa pessoa para que ela esteja dessa forma, como seres humanos curiosos que somos. Mas, quando se vê um cadeirante emburrado, algumas pessoas já logo imaginam “ele é assim, porque está em uma cadeira de rodas”. Dá para perceber a diferença? Por que para uma pessoa “comum” o “estar emburrado” é uma situação, um momento e para outra é uma característica indissociável a uma condição? É algo que nasceu ou permaneceu com ele devido a sua condição física? E a pessoa além da sua deficiência, não tem os mesmos sentimentos que quaisquer outras? E o mais importante, não tem os mesmos direitos de cidadão como qualquer outro?

Quando falamos em incluir, não é a falta de termos que nos deixam sem jeito, mas sim, a falta de empatia, de olhar para o outro ser humano sem julgamento. Mais do que dispositivos para que as pessoas se adequem, é necessário construir espaços adaptáveis a receber pessoas em toda a diversidade social, onde as pessoas tenham liberdade para interagir e explorar o mundo. Parece utópico, um discurso idealista muito distante da realidade do nosso país com tantas mazelas, mas na verdade não é tão distante ou difícil, o mais importante é mudar nosso olhar em relação à deficiência e a pessoa com deficiência. Não é uma sentença de morte, não é um castigo ou benção para famílias “especiais”, é uma condição distinta e que pode sim ser muito difícil, mas não algo que necessite da nossa infinita piedade e consternação.

E se não são coitadinhos, tão pouco são criaturinhas fofas e infantilizadas. Pessoas com deficiência são como todo e qualquer ser humano, feitas de carne, ossos, sangue e hormônios claramente, (embora tenham sua sexualidade “negada” ou vista com menor importância) que sentem alegria, medo, tristeza, prazer e dor e todos os demais sentimentos e sensações possíveis a todos nós. Assim como ocorre com todas as “minorias”, sofrem mais preconceito e enfrentam mais dificuldades, por isso é tão importante aproveitar esse momento de desconstrução social para construir um novo olhar, uma nova percepção e realmente aceitar toda e qualquer pessoa como ela é, tão qual eu e você, o que todos queremos é respeito e igualdade.

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Autora: Bruna Gagetti 

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