Autoconhecimento, Comportamento Social, Saúde Emocional

“One more light” – Sobre o Suicídio e a Mídia

Esse ano a temática do suicídio esteve em evidência na grande mídia se apresentando em temas de séries, do jogo baleia azul e, claro, das repentinas e sequenciais mortes dos cantores Chris Cornell (Soundgarden; Audioslave) e Chester Bennington (Linkin Park) – ídolos de gerações!

É fato que incontáveis astros da música cometeram suicídio ao longo dos anos. Há 23 anos ainda se especula sobre o suicídio de Kurt Cobain. Se você é fã de rock vai conseguir pensar em uma lista ainda maior que inclui vários artistas internacionais, sem esquecer os que estão próximos da nossa realidade. Como esquecer o caso do baixista Champingnon do Charlie Brown Jr.? Longe de explorar a desgraça alheia, o que realmente é importante diante de perdas tão trágicas é usar essa oportunidade para criar diálogos e incentivar as pessoas a procurarem ajuda.

Há poucos dias surgiram reportagens de que fãs do vocalista do Linkin Park cometeram suicídio após sua morte, e a grande questão que fica no ar é:

A morte de grandes ídolos acaba “induzindo” alguns fãs a cometerem suicídio?

Infelizmente há sim um aumento na ocorrência de suicídios, mas não podemos responsabilizar diretamente essas pessoas que se encontravam em um estado depressivo profundo e que também não receberam ajuda necessária. Artistas, de modo geral, inspiraram outras pessoas com suas histórias de vida e/ou trabalho. Mas, o que se pode dizer é que esses fãs, no geral, são pessoas que já apresentavam alto risco em se matar, que acabaram por encontrar um estímulo final em pessoas com as quais se identificavam.

2. Música

Mas somente os ‘Rock Stars’ que se matam?

Em 1986 uma jovem cantora japonesa se jogou de um prédio, na época a policia atribuiu 30 casos de suicídio à morte da estrela pop. Seitas religiosas também influenciam de forma significativa seus seguidores a cometerem suicídio, tendo o caso mais famoso o suicídio em massa de membros do templo dos povos em Jonestown, onde aproximadamente 900 pessoas morreram incluindo o líder Jim Jones na noite branca, no que ele declarou como suicídio revolucionário. E como deixar de fora os homens bombas extremistas religiosos?

Marilyn Monroe, considerada a mulher mais bonita do mundo, que já tendo um histórico de tentativa de suicídio, acabou morrendo e no mesmo mês, segundo dados, aumentou em 200% o número de suicídios.

São inúmeros exemplos em todos os ramos da arte e cultura.  Fazendo uma busca simples, é possível perceber que após a morte de um ídolo surgem ou aumentam casos de fãs cometendo suicídio.

O que ninguém nota…

Algumas músicas tratam de dor e angústia profunda, da luta contra as trevas e os demônios interiores, mas ainda assim há pessoas que entendem essas músicas como motivações a buscar por ajuda e que inspiram a não desistir, pois você vai sofrer, vai ser difícil, mas é possível sim vencer a dor e sobreviver!

O que ninguém nota é que muitos desses músicos relataram em inúmeras situações que lutavam contra angústias e tristezas, eram inspirações para jovens a lutar contra a escuridão interna, a buscar a luz dentro de si para vencer as trevas que existem em todos nós. Mas, o caso é o impacto negativo que tudo isso pode gerar, como foi o caso mais recente entre Chris Cornell e Chester Bennington, que antes de serem ídolos, eram amigos, inspiração e referência um ao outro. Tristemente, em ambos os casos, ninguém parece ter notado a angústia que ambos estavam enfrentando.

A morte também tem um mórbido “benefício” financeiro. É só pensar: Van Gogh vendeu somente um quadro em vida e, após sua morte, suas obras não só se valorizaram como são até hoje peças de valor inestimável financeiramente. O mesmo se reproduz com estrelas da música que alcançam vendas e sucesso estratosférico póstumo.

A morte acaba “valorizando” suas obras. Depois de mortos, tudo que fizeram tem maior procura e passam a ser comercializados a custos altíssimos, é um tanto doentio que só sejam reconhecidos e acolhidos de certa forma quando isso já não faz muito sentido, pois enquanto vivos é que necessitavam de acolhimento, de reconhecimento do seu valor como pessoa e de ajuda.

Muitos artistas (escritores, músicos, pintores, atores, estilistas, fotógrafos) que cometeram suicídio apresentam um denominador comum, que são os sentimentos de não pertencimento, aflição, angústia, de vazio que vem desde quando esse conjunto de sentimentos ainda nem havia sido categorizado como um quadro psiquiátrico.

3. Tradução

O efeito Werther

Em 1774, o poeta alemão Johann Wolfgang Von Goethe, escreveu um livro que inspirou vários jovens por toda Europa a cometerem suicídio: “Os sofrimentos do Jovem Werther”, narrava a história de um rapaz que impossibilitado de viver com a amada, se suicidou, porque o aniquilamento da sua existência não era tão doloroso quanto viver sem ela.

É possível que o próprio autor tenha sofrido uma grande desilusão amorosa e “exorcizou” sua dor ao escrever o livro, mas infelizmente o mesmo não aconteceu aos seus leitores, já que muitos se inspiraram no personagem e cometeram suicídio tal qual o personagem, usando o mesmo método e figurino. Nos dias de hoje atribui-se o efeito Werther a esses casos em que obras literárias, músicas, poemas, filme e séries “provocam” um aumento no número de suicídios decorrentes dessas obras. Esse modus operandi também recebe o nome de CopyCat, que se trata do fenômeno de suicídio em série que ocorre após o suicídio de celebridades realizados seguindo o mesmo método.

Como dito no início, esse ano o suicídio ganhou grande destaque por conta da série 13 reasons why. A saga de Hanna Baker e seus 13 porquês virou tema de debate e controvérsia, principalmente de uma grande maioria que afirma que assistir a série é perigoso para quem já apresenta alguma ideação suicida. Outros, por outro lado, defendem que a série é um alerta. Ambos têm razão, mas a opinião predominante diz respeito à culpa da personagem, que ela poderia e deveria ter procurado ajuda, o que transpondo para a realidade significa que se você está em sofrimento e não procura ajuda, a culpa é realmente sua.

O que podemos dizer é que muitas dessas pessoas não têm condições emocionais de buscar ajuda. Quando você responsabiliza uma pessoa de um profundo sofrimento emocional por não buscar ajuda sozinha, você está dizendo “isso é problema seu”. Você apenas reforça a ideia de que essa pessoa realmente não tem valor e, sobretudo, jovens e pessoas em sofrimento emocional não precisam de 13 razões.

Para finalizar…

Precisamos parar de procurar culpados e começar a discutir o assunto, pois quando nos omitimos de oferecer ajuda só contribuímos para que a pessoa se sinta culpada e, cada vez mais, só nos tornamos júri, juiz e carrasco. Quando julgamos, condenamos e sentenciamos essa pessoa ao abandono, para que lide sozinha com um peso que não suporta, estamos nos eximindo da responsabilidade de prevenir que mais pessoas atentem contra suas vidas, porque colocamos a culpa num jogo, numa série famosa, num livro de sucesso ou nas músicas melancólicas, mas não conseguimos conversar com os jovens sem julgamentos, não conseguimos oferecer ajuda e porque ainda acreditamos que a depressão e o sofrimento emocional não passam de um mero capricho na tentativa de chamar atenção. O que é muito triste, pois deixamos de reconhecer a humanidade em nós mesmos e no outro, que muitas vezes só precisa de uma única razão, uma única pessoa ou um único “você não está sozinho!”. Para que vivam por mais um dia, um dia de cada vez, até conseguirem se sentir fortalecidas e aprendam a se amar um pouco mais e valorizar a própria vida, pois quem está á beira do precipício não precisa de um grande empurrão, um ventinho leve já é o suficiente.

Mas, que fique claro que não é culpa, mas sim falta de atenção ou de empatia para com outro quando dizemos que quem quer se matar não avisa, que é frescura! Infelizmente não conseguiremos salvar todos, mas tratemos daqueles que podemos ajudar, dos casos possíveis de serem evitados e que já são muitos. E claro precisamos acabar com o preconceito e marginalização dos transtornos mentais quando é evidente que a realidade é que as pessoas que cometem suicídio, em sua esmagadora maioria, apresentam condições tratáveis, negligenciadas por vergonha, por temer o estigma de doente mental e ser desqualificado como pessoa, o que, voltamos a enfatizar, não acontece com quem apresenta uma doença cardíaca, diabetes ou qualquer outra doença.

Pare e pense por um momento como seria o mundo se estigmatizássemos todas as pessoas de crianças a idosos que sofrem com rinite ou sinusite? E se dissemos que é frescura não conseguir respirar daqueles que tem asma? Ridículo não é? Pois é, isso é o que acontece quando dizemos que a depressão e todos os outros transtornos são frescura, “falta de vergonha na cara”, “preguiça”, “coisa de vagabundo“.

Sejamos referências e tenhamos empatia para que os que sofrem das profundas dores da alma se identifiquem e se sintam mais fortalecidas para resgatarem sua própria humanidade e percebam que a vida de cada um vale a pena.

PsicON | A Psicologia conectada com você

Autora: Cristina Santana

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s