Você já parou para pensar o que leva você a escolher um alimento para consumir? É apenas por estar com fome, é o que está disponível no momento, é aquilo que alguém fez ou o que o dinheiro pode comprar ou ainda por ser algo que agrada seu paladar? Existem vários fatores envolvidos para você escolher um alimento e todos eles providos de uma ou várias culturas.

A cultura estabelece o que é comestível, constrói e ensina os sabores gostosos, estabelece os tipos de comidas com suas variações e sabores. Veja só, no Brasil não se come carne de cachorro, mas come carne de vaca, diferentemente de alguns países da Ásia. Isso ocorre porque dentro das culturas, os hábitos alimentares estão atrelados a simbolismos. O cachorro aqui para nós é um animal que vive em nossas casas e cada vez mais vêm ocupando papéis importantes emocionalmente. Como comer o seu amigo/filho? Diferentemente da vaca, todavia na Índia ela é um animal sagrado. E como seria comer um ser divino?

Mas quando falamos de cultura alimentar, deve-se partir da compreensão que ela é viva e em constante transformação, por exemplo, na Idade Média aqui no Brasil, as carnes eram servidas em formas inteiras, hoje tenta-se afastar esse tipo de apresentação, porque quanto menos lembrarmos do animal que advêm aquela carne, melhor. Outro exemplo de mudança é sobre o café. Por longos tempos ele foi uma bebida proibida, tida como uma droga, não o sendo mais nos dias de hoje. E já houve outra mudança quanto a ele, porque passou de uma bebida estimulante (que ainda o é, a partir de suas composições) consumida em momentos oportunos, para ser utilizada como efeito relaxante na parada do trabalho ou para ser o meio de um encontro casual entre amigos.

Outra mudança foi com quem nos alimentamos, porque comer é um ato social. Até pouco tempo atrás, as principais refeições do dia ocorriam em nossas próprias casas, junto com a família, sentados à mesa e com agradáveis alimentos feitos ali mesmo. Hoje, este cenário ocorre bem menos ou em momentos especiais ou aos domingos, o famoso almoço de família. No dia a dia, nos alimentamos em espaços ofertados pela empresa em que trabalhamos, em restaurantes, em uma barraquinha de salgados ou lanchonetes rápidas, com comidas rápidas, se não em pé mesmo. Para os mais velhos, comer era um momento sagrado. Para muitos jovens de hoje, se alimentar no dia a dia é uma necessidade para manter o corpo ativo em dias que são sempre corridos.

Essa vida rápida, com pouco tempo para se alimentar, surgiu com o fenômeno da aceleração da urbanização, seguida pela industrialização e que se mantem pela globalização e capitalismo. Diante essas mudanças de viver em sociedade, importamos dos países desenvolvidos restaurantes de fast-food para atender a demanda brasileira: comida rápida e barata para pessoas com pouco tempo para se alimentarem.

Todavia, nosso costume de querer importar alimentos para o país, traz a ilusão que são melhores ou que ao ter acesso aos seus costumes, estaremos nos aproximando do status de país desenvolvido. Porém, trouxe mudanças significativas e de cunho negativo para os nossos pratos.

Em decorrência de todos esses e outros mais fatores não expressos aqui, observa-se que estamos deixando de comer aquilo que é típico do nosso território, para incorporar aquilo que vem de fora. Alguns exemplos é o baixo consumo de comidas feitas a partir da farinha de milho, de mandioca e a queda na preferência por feijão, alimentos ricos em nutrientes, ao mesmo tempo em que consumimos cada vez mais alimentos industrializados advindos de outros países.

O arroz com feijão ainda continua sendo um dos pratos principais na mesa do brasileiro, mas com eles colocou as carnes, as salsichas, as batatas fritas, as massas em geral e os refrigerantes ou sucos industrializados. Com essa mudança na cultura alimentar, estamos consumindo mais gorduras de diversos tipos, açúcares e sal. Logo, estamos aumentando nossos índices de pessoas obesas, com colesterol, diabetes e mortes prematuras em decorrências de infarto e AVC.

Você deve estar se perguntando: o que tem a ver esse processo histórico sobre a cultura alimentar com a escolha de qual alimento irei consumir? Saber minimamente sobre esse processo, favorece a reflexão porque tenho acesso a determinados tipos de alimentos, porque gosto deles e que construímos nossa identidade com influência direta dela. Logo, é possível desconstruirmos alguns sentimentos de culpa em relação a comida que comemos, afinal estou inserida (o) num núcleo social e cultural.

Agora você pode estar se sentindo mais aliviada (o) em continuar comendo aquela lasanha congelada, porque sabe que você é resultado de uma cultura. Bem! Lembra que foi dito que é para favorecer a reflexão e não para apenas encontrar respostas. A reflexão continua…

Não é porque a cultura alimentar tem importante impacto em nossas vidas que vamos simplesmente seguindo em frente. É certo que cada indivíduo busca o melhor para si mesmo e isso não tem nada a ver com a rotulação do que é bom ou ruim. Logo, não estou determinando quais tipos de alimentos você deverá consumir e sim que suas escolhas devem estar pautadas sempre naquilo que você acredita ser melhor para você.

As escolhas que fazemos não devem ser feitas a partir de “achismos”. Devemos buscar informações com qualidade a respeito daquilo que te deixa em dúvida. Ao mesmo tempo, suas escolhas não são isoladas, você faz parte dessa cultura e lembra que ela é viva, sempre em constante transformação? Você produz cultura!

Hoje temos diversificação de opiniões sobre o mesmo tema. Basta você escolher qual bandeira você ergue e ter elementos necessários para defende-la. Fazer uma escolha não determina que deverá tê-la para todo o sempre. Se a cultura está em transformação é porque os seus indivíduos são seres em transformação. Por isso, sugiro: reflita sobre o que você come, ouse usar do seu potencial de crescimento para fazer escolhas que te satisfaça. Alimente-se.

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Autora: Juliana Queiroz

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