Comportamento Social

O Estereótipo distópico: “Em tempos de (abuso de) rede social, SER de verdade é um ato revolucionário”.

Primeiramente, devemos definir padrão e estereótipo. Padrão é aquilo que serve de medida ou parâmetro, um modelo a ser reproduzido. Estereótipo é uma imagem pré-concebida de determinada pessoa, coisa, comportamento ou situação que definem ou limitam, tendo uma relação profunda com preconceito, pois, muitas vezes os estereótipos se transformam em rótulos pejorativos, causando desconforto, constrangimento e outros efeitos negativos em quem o carrega. Ambas são condições limitantes e segregarias presentes na nossa cultura e sociedade.

A frase que encabeça o título deste texto foi inspirada na frase do livro 1984, de George Orwell: “Num tempo de engano universal dizer a verdade é um ato revolucionário”.

Somos seres sociais, com isso nos adaptamos a uma infinita gama de regras e normas que pretendem estabelecer uma convivência civilizada, muitas das vezes “regras arbitrárias e contraditórias” que não representam a todos, o respeito, por exemplo, deveria ser a mais importante regra social, porém está em desuso por uma grande parcela da sociedade. Mais do que seres sociais, somos seres desejosos, desejamos e queremos ser desejados. Categorizamos o mundo e as pessoas de acordo com nossos desejos, algumas vezes encarceramos nossos desejos, pois os mesmos não condizem com a imagem ou papel social que representamos (e que quase sempre não nos representa verdadeiramente).

Os estereótipos influenciam muito no nosso comportamento social, no modo como nos relacionamos com os outros ou como segregamos quem não atende a determinada expectativa social. Tomamos como exemplo o ator e apresentador Rodrigo Hilbert que esteve em evidência por seus “predicados”, e desde então o assunto tem sido cada vez mais comentado em inúmeras páginas, sites e blogs. Uma enxurrada de cartas abertas e ‘textões’ indignados e queixosos com a injusta comparação, homens unidos defendendo uns aos outros e pedindo que as mulheres apreciem e VALORIZEM as qualidades dos homens reais, que é muita crueldade estabelecer a comparação entre os feitos do ator com os homens reais que não possuem nem os mesmos atributos físicos, nem as qualidades em corte e costura, marcenaria, construção, culinária, afazeres domésticos e cuidados com os filhos: O FRÁGIL EGO MASCULINO FOI ABALADO POR UM ÚNICO HOMEM! E revoltosos finalizam seus sermões argumentando: Você também não é nenhuma Fernanda Lima, se empoderam de sua grandeza de homens reais tentando diminuir suas mulheres.

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O casalzão da P…

Do outro lado desse dilema, temos mulheres, algumas insatisfeitas com a repercussão, porque afinal de contas, a grande maioria das mulheres não é reconhecida ou valorizada por desempenharem as mesmas funções ou até mais, outras incentivando que seus parceiros se inspirem no exemplo saiam do padrão e sejam mais participativos e colaborativos, a dolorosa verdade é que, desde sempre, mulheres tem estado no escrutínio social, sendo medidas, avaliadas, categorizadas, julgadas, rotuladas e não para corresponder somente aos atributos físicos e habilidades femininas de uma única  mulher, as exigências  não são  somente em relação a ser “bela, recatada e do lar”, mas sobre o corpo, seu modo de se vestir, de se comportar, sobre o ser mulher.

Outro dado recente se refere a um experimento social realizado por um site “Simple Pickup – Fate Guy Tinder Date; Fat Girl Tinder Date” que costuma dar dicas de ‘como conquistar garotas’. Para o experimento, o site criou um perfil masculino e outro feminino, duas pessoas magras e de “boa aparência” que marcaram 05 encontros através de um famoso aplicativo de relacionamentos, com a diferença de que no momento do encontro real os dois participantes recebiam roupas e maquiagens para parecerem mais gordos. Filmados com uma câmera escondida as reações foram bem diferentes entre homens e mulheres: os homens foram rudes e grosseiros e não permaneceram no encontro; entre as mulheres, mesmo reconhecendo que o pretendente era diferente, foram mais gentis e não se incomodaram tanto quanto os homens em continuar e conhecer. Das 05 mulheres três se mostraram dispostas a permanecer no encontro ou marcar um novo encontro, uma chegou a beijá-lo.

O que se percebe é que esses homens, infelizmente, representam grande parte que não consideram que uma mulher deva ser respeitada independente do seu peso ou aparência física, e ainda é muito comum a ideia de que pessoas principalmente mulheres gordas (plus size) não sejam atraentes ou bonitas. Porém, mais infelizmente ainda, é o fato de que nem todas essas mulheres se reconhecem como bonitas, independente da opinião alheia, nem todas encontram em si mesmas condições de se valorizarem, amarem seus corpos e lutarem contra o preconceito, e muitas acabam perdendo as vidas, vítimas de cirurgias mal sucedidas na tentativa de se encaixar num padrão e de serem aceitas.

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O corpo “perfeito”. O olho “perfeito”. O cabelo “perfeito”. A pele “perfeita”! O que é ser perfeito?

Não podemos generalizar nem a conduta dos homens, nem a das mulheres, mas esse tipo de julgamento e desvalorização ainda é muito mais brutal e cruel com elas, com todas nós mulheres. A diferença nada sutil nas situações é que independente das qualidades do ator, os homens em sua maioria, não são empáticos quando a situação é ao contrário, quando eles apontam seus seletivos indicadores para dizer o que é necessário para ser a mulher ideal, como ela deve ser correspondendo à idealização social e cultural que nos é imposta desde a mais tenra infância.

Um exemplo gritante do quanto esse tipo de cobrança e de ajuste a um padrão é absurdo, são os concursos de beleza infantil, onde já se estabelece que determinado tipo de beleza é o esperado e aceitável e que uma única menina é a mais bela de todas. Nesses concursos presenciamos crianças em idade de troca de dentes usando próteses, porque as janelinhas tão esperadas e marcantes no desenvolvimento não se encaixam; Os cabelos têm que estar sempre impecáveis, ostentados por um penteado bem suntuoso e cheio de laquê; Maquiagem tem que ser o bastante para parecer natural… É um verdadeiro show de horrores que em nada condiz com a beleza das crianças, principalmente porque nem sempre é um desejo dela. Algumas encaram tudo como uma grande brincadeira, pois toda criança tem essa curiosidade natural de brincar de ser gente grande, de experimentar, de pintar seus rostos, suas unhas – CRIANÇAS, não necessariamente meninas! – outras acabam sofrendo vítimas dos desejos dos pais.

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Pequena Miss Sunshine, filme de 2006

Mudar a concepção de padrões é uma tarefa que encontra muita resistência, pois está muito enraizada em todos dos os níveis sociais. Pensando nisso percebemos como somos influenciados não só pelos estereótipos, mas por todo um mercado que alimenta a permanência dos padrões: Da produção e má fiscalização dos alimentos que consumimos às instituições, medicamentos, programas e todo o aparato de produtos que lucram vendendo a ideia: do emagrecimento milagroso, de eterna juventude, da beleza extraordinária, do aumento de tônus muscular. O que você deve comer beber, vestir, quais equipamentos tecnológicos fazem de você uma pessoa que atende as expectativas, o que o aproxima mais do estilo de vida de celebridades.

Até alguns anos atrás não se ouvia falar tanto em veganismo, o vegetarianismo era mais conhecido e não era incomum ouvir ‘bicho grilo’, hippie, como referência pejorativa a quem abdicava de ingerir carne animal. Hoje em dia a indústria alimentícia investe em produtos voltados a atender as necessidades dos adeptos desse estilo de vida, não por inclusão, representatividade ou preocupação genuína com as necessidades nutricionais dos indivíduos, mas porque esse é um nicho de mercado altamente rentável. Entendam que a crítica NÃO É em relação ao estilo de vida de quem aboliu o consumo de carnes ou produtos de origem animal, pelo contrário, é sobre a incoerência, no quanto isso tem sido deturpado e comercializado por estar na moda, não por questões de consciência social, não por escolhas pessoais que priorizem a saúde do individuo e diminuam os abusos e maus tratos aos animas ou impactos ambientais desse processo, mas porque é a tendência do momento.

Somos bombardeados com ideias que reforçam o culto ao corpo e é, no fundo, uma imensa insegurança e necessidade de que outros lhes atribuam um valor que você mesmo é incapaz de perceber em si mesmo. Rankings que elegem os mais bonitos e sexies, e desconsideram milhões de pessoas, verdadeiramente bonitas e sexies no mundo.

Qualquer padrão ou estereótipo que diminui ou desqualifica uma pessoa é nocivo para todas as outras. Fernandas, Giseles, Grazis, Scarlets ou Angelinas. Rodrigos, Caios, Cauãs ou Brads. Você. Eu. NÓS! A beleza está em sermos únicos e, por ser assim, está em todos nós.

Não importa se você é alto, baixo, magro, ou gordo; Não importa se você defende causas animais ou não resiste a um hambúrguer; Se seu cabelo é liso ou enroladinho; Se gosta de meninas ou meninos. Por que não dos dois?; Não importa se você é criança, homem, mulher ou, Queer, se você for autêntico e sincero e amar a si mesmo, você será inteiro, e ninguém nasceu para viver pela metade ou não aproveitar a vida porque a felicidade está a um padrão ideal de distância. Gente bonita mesmo é gente feliz independente do que qualquer rótulo, comercial de shampoo, lingerie ou margarina ainda teime em dizer. 

3. Place strawberries and cornstarch into a blender. Cover and puree until smooth. Pour strawberry sauce into a saucepan.

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Autora: Cristina Santana

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