Todos nós crescemos numa cultura onde o termo sexualidade é reduzido apenas ao ato sexual e falar sobre sexo ainda é visto como algo imoral. É considerado sujo, feio e inapropriado, quando, na verdade, deveria ser tratado como algo natural, algo que faz parte da vida do ser humano.

O sexo e as questões ligadas à sexualidade é algo inerente a todos nós, faz parte de quem somos e de como somos. Todos esses tabus e julgamentos morais, muitas vezes, acabam por nos engessar, impedem-nos de explorar de forma natural e saudável a nossa própria sexualidade e o modo como vamos desenvolvê-la ao longo da nossa vida. Ou tudo é altamente sexualizado ou tudo é considerado perversão.

O comportamento sexual considerado saudável, apesar de pouco citado em rodas de conversas, não exclui fantasias e desejos ocultos que, por muitas vezes, são reprimidos da nossa consciência, podendo ser expressos pela fixação em fantasias, personagens e/ou objetos. Não sabemos muito o que queremos dos nossos desejos por medo de desvio de conduta, julgamentos ou ser considerado ilegal. Acabamos por esconder o problema de nós mesmos com muitos “poréns”, “e se”, “não devo”, “não posso” ou “não é permitido”, acabando por extravasar em comportamentos ansiosos ou obsessivo-compulsivos, por exemplo, em uma tentativa de organizar tudo ao redor para não ter que enfrentar os desejos internos.

Outro fator que contribui para o pensamento como ato imoral dos desejos e fantasias sexuais é a questão de sempre atrelá-los aos nossos sentimentos genuínos ligados ao amor como o afeto, o carinho e a cumplicidade. Oras, quantas pessoas você conhece que, ao falar em ato sexual, referem-se como “fazer amor”? Com certeza você conhece muitas se, você mesmo não for uma delas. O fato de falar do sexo como sinônimo de amor, não é ruim, cada um pode chamá-lo como bem entender. O que pode ser conflitante são os sentimentos antagônicos produzidos pelo desejo sexual, como a dominação, submissão, possessão, a agressividade, o desequilíbrio e a indecência.

45. Fetiche 2

Ou seja, por vezes deixamos as fantasias de lado, por medo de conflitá-las com a segurança que o amor e o companheirismo nos proporcionam.  Achamos que não é possível aliar o fato de sentir desejo em querer ser amarrado, punido, exercer poder sobre o outro, ou vestir-se de fantasias e personagens, falar “besteiras” ou palavras chulas porque destoa do afetivo, do romântico, do ingênuo. Conflitar dois lados de uma mesma moeda é realmente difícil, principalmente quando estamos cercados de questões mal resolvidas conosco enquanto sociedade moral. Como diria Rita Lee: “Amor é divino / Sexo é animal / Amor é bossa nova / Sexo é carnaval”.

A simples separação do que é fantasia àquilo que é romântico e puro, já nos ajuda a conhecermos a nós mesmos enquanto seres humanos que sentem desejos e vontades. E isso não necessariamente está ligado a um transtorno perverso.

A perversão, ou mais precisamente falando, as parafilias são preferências e práticas sexuais únicas e exclusivas, onde a pessoa que apresenta esse tipo de personalidade não tem uma preferência ou curiosidade em explorar diversidade nas suas relações sexuais. Os comportamentos sexuais que fazem parte da personalidade desse grupo é o único jeito que desejam e conseguem sentir prazer. Não é uma fantasia, ou simplesmente um fetiche, é a única regra, pois os indivíduos com transtornos fetichistas estão satisfeitos sexualmente e não encaram como um problema ou são capazes de sentir culpa.

Alguns exemplos mais comuns de parafilias:

  • Fetichismo – Excitação sexual exclusiva com o uso de determinados objetos inanimados, como os podólatras, por exemplo, que sentem fetiches por pés.
  • Exibicionismo – Excitação sexual ao exibir os próprios genitais a estranhos sem qualquer tentativa de envolvimento sexual do outro com ele.
  • Voyeurismo – Tendência recorrente a obtenção de prazer em olhar pessoas distantes se despindo ou em atividades sexuais.
  • Masoquismo – Sentem prazer com o próprio sofrimento real, físico ou psicológico.
  • Sadismo – Sentem prazer em aplicar sofrimento ao(s) parceiro(s), sofrimento real físico ou psicológico.
  • Outras parafilias já conhecidas: pedofilia, necrofilia, zoofilia, urofilia e coprofilia, entre outras.

Essas práticas quase sempre estão atreladas a crimes sexuais, ou seja, são delitos cujo propósito está ligado a obtenção de prazer e satisfação sexual, incluem estupro, atentado violento ao pudor, posse sexual, abuso e corrupção de menores, rapto, violência, assassinatos, entre outros.

45. Fetiche 3

Voltando ao ponto que trata os desejos e fetiches, estamos nos referindo sim a todas as práticas que nomeamos “fora do convencional” e, por convencional, tomemos a relação sexual com penetração. Imagem que, diante de um determinado grupo cultural ou com mesmo tipo de pensamento moral, vários comportamentos e práticas acabam sendo abarcados como se também fizessem parte do grupo por fugirem à regra. Em outras palavras: seus desejos e fantasias sexuais ocultos não necessariamente significam um desvio à conduta moral.

A diferença, como já dissemos anteriormente, encontra-se na intenção, na motivação por tentar uma nova prática, um novo cenário, uma nova posição, adicionar brinquedos, realizar fantasias, essas e outras mil possibilidades quando são um meio para inovar e melhorar o relacionamento, é válido e saudável, além de recomendado. É importante que as pessoas estejam dispostas e abertas a novas experiências, desde que estejam em comum acordo, é um investimento na própria sexualidade, em vivenciá-la de forma mais natural, sem o peso do julgamento.

Fetiches por pés, mãos, mordidas, de olhar ou se exibir, de amarras ou algemas, de perseguição, de sexo a três ou em grupo… A lista é interminável e um tanto quanto curiosa.

Vamos promover o diálogo sobre o sexo e trazer isso para os relacionamentos de modo geral, e isso inclui uma simples conversa entre amigos (as). Não há melhor forma de desmistificar algumas ideias e quebrar alguns tabus do que o diálogo e isso é extremamente importante quando se pensa em apimentar e redescobrir a sua própria sexualidade.

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Autor: Bruna Gagetti

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