Autoconhecimento, Comportamento Social

Desmistificando a Sexualidade – Teoria Queer

Quando abordamos as questões de gênero, de identidade e orientação sexual ou de desejo, cria-se um nó, mas podemos dizer que a sexualidade como reconhecemos até hoje estabelece um padrão cis heteronormativo monogâmico. Mas, o que isso quer dizer?

Que se espera que homens e mulheres correspondam a seus papeis sociais (rosa para meninas, azul para meninos), estabeleçam relações heterossexuais e monogâmicas, o que coloca as pessoas que não se encaixam dentro desse padrão classificatório como “anormais”. Parece um tanto exagerado, mas se justifica ao lembrarmos que até recentemente a homossexualidade era uma patologia classificada como transtorno mental e que ainda é considerada crime em alguns países conservadores.

Nós evoluímos nas questões de sexualidade, diminuiu-se o preconceito, mas ainda encontramos muita violência e intolerância. Mesmo dentro dos movimentos LGBTI existem dificuldades, pois uma parcela quer se enquadrar aos padrões para serem socialmente aceitos, outros querem romper padrões. Atualmente existem muitos rótulos e caixinhas, que de um modo ou de outro ainda representam uma divisão sexual que reforça o binarismo homem/mulher ou a tríade homo/hetero/bi de modo que acabam instituindo novas normas que se atritam e conflitam mesmo estando sobre a mesma bandeira de igualdade. Dentro desse contexto, há uma área de estudos que ganha cada vez mais notoriedade: A Teoria Queer, que propõe exatamente desnaturalizar identidades, visto que essas normas violentam a subjetividade da pessoa, no sentido de promover autonomia corporal e do desejo, expressar diversos desejos e transitar entre os gêneros não para se adequar aos padrões tradicionais, mas para que não haja padrões.

A teoria Queer, é um movimento que contempla questões antropológicas, políticas, econômicas e sexuais, que é onde faremos nosso recorte para tentar esclarecer esse multiuniverso de possibilidades quando se fala de sexualidade.

O termo Queer:

Guacira Lopes louro faz uma tradução do termo antes da teoria “Queer pode ser traduzido por estranho, talvez ridículo, excêntrico, raro, extraordinário”, diz Louro (2004, p. 38). Queer que até então era usado como insulto, tornando-o um termo positivo como referência a todos que não se reconhecem dentro do binário homem e mulher ou dos gêneros. Desconstrução do sujeito como produto de uma ordem institucional, social e cultural onde já estão pré-estabelecidos os papéis feminino e masculino, e até mesmo a dicotomia homo/hetero e ao mesmo tempo retirar a carga pejorativa do verbo.

Mais do que resignificar um termo, a teoria propõe um novo olhar que extrapola as questões de gênero e sexualidade, já que é cada vez mais perceptível a questão da heteronormatividade como uma condição segregaria que não só não contempla a identidade de todas as pessoas como também impõe a norma de uniformidade entre um sexo, um gênero e um desejo ou prática que via de regra são impreterivelmente heterossexuais, o que além de não condizer com a realidade subjetiva de cada individuo, marginaliza e discrimina os demais que não se identificam com essa ordem.

É importante ressaltar que as questões de gênero e sexualidade não são uniformes ou indeléveis, a identidade de cada pessoa não é algo imutável, logo as questões referentes a sexualidade também não: A sexualidade é fluída! e o Queer tenta abolir as classificações ditas normais, afinal quem pode dizer o que de fato é normal?

Judith Butler esclarece:

“Aqueles que não se enquadram a esta norma social são alocados à abjeção e tem a existência e materialidade de seus corpos ameaçados socialmente, suas vidas são frágeis e precárias, pois são considerados menos humanos, aberrações de uma humanidade pretensamente saudável e perfeita. Os abjetos não apenas existem de forma excluída da normalidade, eles são parte constitutiva dela, fantasmas que assombram a construção de gênero de meninos e meninas “saudáveis” e que podem a meio caminho desviar-se. São assim considerados ameaças à sociedade que desempenha esforços violentos simbólica ou materialmente em perpetuar o que se considera natural, mas teima em não se realizar completamente (Butler, 1999).

De acordo com os estudos Queer, a imposição de uma identidade e orientação sexual fixa e linear pode ser entendida como uma forma de controle, poder, disciplina e opressão que favorece ou (condiciona) uma parcela a da população que não representa o todo e, em tempos de empoderamento, o Queer assume o seu lugar político como uma forma de empoderamento de quem você é ou deseja ser para além dos rótulos e nomenclaturas, sem se apropriar de uma representação social definitiva onde gênero, orientação e expressão sexuais são fluídos.

Isso significa que não haverá mais heterossexuais? Definitivamente não, se a teoria propõe que se rompam as classificações e normas não é para instituir uma nova ordem compulsória, os estudos e a própria teoria não privilegiam grupos específicos e sim a desconstrução dos processos de categorização sexual, com o intuito de possibilitar uma transformação social, uma educação de gênero neutro que não imponha papéis e desejos. A confusão se dá pelo forte pensamento voltado para o binarismo e as categorizações (leia-se rótulos) pela dificuldade de romper esses estereótipos, e pelo temor que alguns têm de serem marginalizados por suas expressões e desejos sexuais, como os G0ys (homens que sentem atração e se relacionam intimamente com outros homens, com exceção do sexo anal, mas não se consideram homossexuais mantendo inclusive relacionamentos com mulheres) que criaram essa nova “caixinha”, pois não se adéquam as demais, mas que poderiam exemplificar a grosso modo o que é o Queer, diante da sua postura fora dos moldes tradicionais, o ponto é: com quem você se relaciona é e sempre será algo que diz respeito a você e somente a você.

Assim como o feminismo e os movimentos LGBTs, a teoria Queer quer nos fazer pensar e considerar o impensável, aquilo que é proibido pensar, em vez de somente considerar aquilo que é permitido pensar, significa questionar, problematizar e contestar todas as formas instituídas e bem comportadas de conhecimento e de identidade. Não se restringe à identidade e ao conhecimento sexual, se expandindo para o conhecimento e a identidade de modo geral.

Percebam não é uma questão de escolha, mas de liberdade para a construção da sua identidade. Pelo seu caráter contestador e provocador não é algo que esteja definido e talvez nunca esteja, por assumir esse teor revolucionário gera algumas polêmicas, mas sem dúvidas é um assunto que nos faz pensar e reconsiderar algumas certezas e o nosso olhar sobre as representações sociais que naturalizamos, mas que fazem parte de um contexto histórico e cultural que representa uma pequena parte do universo multiplural da sexualidade.

 

Para saber mais:

Guacira Lopes Louro

LOURO, G. L. Um corpo estranho. Ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte, Autêntica editora, 2004.

Judith Butler

BUTLER, Judith. Corpos que pesam: sobre os limites discursivos do “sexo”. In: Louro, Guacira Lopes. O corpo Educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.

Richard Miskolci

MISKOLCI, Richard . Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. Belo Horizonte: Autêntica Editora/UFPO, 2012. 80 p. (Série Cadernos da Diversidade, 6).

 ~ PsicON | A Psicologia conectada com você

Autor: Cristina Santana

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4 comentários em “Desmistificando a Sexualidade – Teoria Queer”

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