O cinema e as artes em geral quase sempre tem preferência em retratar a “loucura” de modo violento e devastador. Sempre representam os estados extremos, o lado feio da loucura: são inúmeros os psicopatas, os doidos de pedra que resolvem abrir portas a machadadas, outro com um peculiar apetite por carne humana ou aquele com inclinações a travestir-se e incorporar a própria mãe para cometer assassinatos.

Loucura e violência aparecem em cena como o conjunto mais eficiente para prender a atenção do expectador, como se os transtornos mentais, via de regra, viessem sempre acompanhados de ataques coléricos. A questão não é parar de representar a loucura, nem tão pouco transformar o indivíduo com adoecimento mental em um ser impassível e pacifista, incapaz sequer de pensamentos agressivos. O ponto é encontrar uma forma de retratar de modo singular, outros aspectos que possam colaborar para a inserção social e a desmistificação, tentando não favorecer ou fortalecer o estereótipo já impregnado no pensamento coletivo de que a pessoa com distúrbios e transtornos mentais é sempre um perigo para quem, por azar do destino, atravessar seu caminho. Crença essa que distorce nossa visão de saúde mental, da psiquiatria e da psicologia, já que é sabido que no senso comum essas duas ciências lidam com as obscuridades da mente, que é coisa para gente louca e ninguém quer ser o próximo a dizer: ”Heeeeeeres Johhny’” ou se transformar na próxima Annie Wilkes.

Gostamos mesmo da fantástica loucura descrita por Alice, de um mundo fantástico, ou melhor, um país onde tudo é maravilha, onde tudo é tão absurdo que realmente não dá para acreditar que é verdade. Ou, que a mente de alguém consiga criar um delírio tão desproporcional, e esse tipo de loucura em parte nos encanta, mas que não é o tipo que encontramos no dia a dia! Será? E se você soubesse que uma considerável parte dos indivíduos que realmente cindiram da realidade, vivem isolados em seus próprios países das maravilhas, que não são nada como o de Alice, mas que retratam seu mundo interno e também suas experiências de vida?  E se você soubesse que eles expressam esses mundos de maneiras absurdas? Algumas vezes tão maravilhosas quanto às pinturas de um reconhecido pintor famoso, como um Van Gogh, por exemplo. E se você soubesse que quadros tão maravilhosos expressam a loucura genial de um artista com uma desordem no seu mundo interno?

E o que dizer do fidalgo Dom Quixote? Um personagem que mais parece um caleidoscópio de hipóteses diagnósticas. A leitura de cada trecho ou a cada nova leitura, surgem mais possíveis sinais da loucura do cavaleiro que lutava contra gigantes moinhos de vento, mas se você se concentrar em somente catalogar os sintomas, vai perder a poesia. E Estamira? Que nos presenteia com o seu discurso afiado sobre o mundo e sobre a vida. Sobre o existir e o ser. Se você não a conhece, deve assistir o documentário que conta sobre a vida da catadora do Jardim Gramacho, bairro da cidade de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Em certos momentos o filme nos causa incomodo, choque e espanto, mas sem dúvida é uma das obras mais tocantes no que diz respeito a esquizofrenia e como a lucidez está presente no seu discurso tresloucado. Há muito sentimento e tanto significado em suas falas que é possível questionarmos se realmente “nós” é que somos lúcidos!

Algumas obras conseguem despertar a sensibilidade das pessoas e nesse sentido é positivo. A arte faz com que a loucura transpasse o nível de deformação. Da loucura que é ameaça constante, também floresce beleza, sentimentos e transformação. Nesse prospecto, filmes e séries funcionam como recursos que nos ajudam a entrar em contato com algumas emoções e despertar empatia que até então nos parecia inexistente, como ao ouvir histórias de um corredor com sapatos gastos demais. Quem não se encantou e se emocionou com todas as histórias contadas por esse personagem Forest Gump? Tão puro e desprovido de qualquer preconceito, as histórias que inspiram a buscar por sonhos e liberdade. Mas, Forest no mundo real talvez não encontrasse a mesma escuta e oportunidade, suas histórias talvez não seriam apreciadas e a errância às       vezes psicótica é a mesma que marginalizamos todos os dias nos andarilhos, que estão tão livres que não tem aonde se prender ou chegar, quase como se ao contrário de quem está preso ao seu mundo interno, estivessem presos do lado de fora.

O mesmo acontece com o matemático John Nash, em Uma mente brilhante. Nos assombramos ao perceber até onde um “desajustado”, que tinha delírios visuais conseguiu chegar. A história nos inspira a acreditar em nós mesmos. Que o amor é o melhor tratamento, mas convenientemente nos esquecemos de que a trama romanceada conta a história de uma pessoa real e brilhante que tinha esquizofrenia. Enfrentou muitas dificuldades, mas conseguiu não só ter seu trabalho reconhecido, como também uma vida normal, o que não seria possível se o mesmo tivesse passado anos trancafiados por simplesmente apresentar uma condição de transtorno mental.

O solista que com tanta sutileza nos faz questionar o modo que tratamos quem tem um adoecimento mental. Que nos mostra todo o lado humano, além da esquizofrenia, e que conta a história de um talento real que vagou durante anos pelas ruas.

Não estou dizendo que em todo andarilho ou pessoa em situação de rua, habita em segredo um gênio a ser descoberto, um diamante a ser lapidado (também não estou dizendo que não). O que isso significa é que as pessoas são muito mais do que a nossa fraca visão superficial consegue perceber, captar e sentir. Enquanto nos ocupamos em nos preocupar e temer, esquecemos de olhar e enxergar a pessoa além das suas limitações e condições mentais, suas nuances, seus delírios que nos contam uma história. A sua história. Esquecemo-nos de admirar ou simplesmente olhar com respeito o mundo interno do outro, pois já automatizamos a nossa concepção de que o que ele compartilha externamente (internéticamente) é o que importa. Vivemos em um mundo caótico e louco, mas repudiamos o caos quando ele não nos beneficia ou não nos deixa mais belos e atraentes. É como ir ao Louvre e o mais importante que admirar a pintura, contemplar e tentar desvendar as razões profundas da mente do pintor, é registrar nossa foto sorrindo de costas para obra de arte.

Temos muito a aprender sobre a loucura e a sanidade, sobre o normal e a excentricidade, o excesso, a falta, a arte, seja ela figurativa ou abstrata, concreta ou surreal. Temos que reaprender a contemplar e sentir no filme, na música, na prosa, no verso, nos nós que só enxerga o ‘eu’ raso e previsível. Temos que aprender e refletir melhor sobre nós e como reconhecer e tratar melhor nossa própria humanidade desvairada ou não.

Não caberiam aqui todas as referências de obras baseadas ou que retratam a infinita gama de transtornos mentais. Mais importante que relatar (não temos a intenção de ser um compêndio!), todas as obras ficcionais (ou não) é tentar transformar o olhar para TODOS que apresentam, sofrem e existem além de seus transtornos mentais. A reflexão proposta aqui não é para romantizar nenhum dos transtornos mentais, nem diminuir a necessidade de tratamento e acompanhamento, mas para despertar um olhar mais profundo do adoecimento mental, de como tratamos e representamos o sofrimento mental.

Possivelmente você ou alguma pessoa querida já passou ou passa por algum processo desse mal estar da humanidade. Pense em como você quer ser visto e tratado, tente fazer o exercício de se colocar no lugar do outro, que pode ser o seu lugar amanhã. Você não precisa necessariamente ser a Natalie Portman para enlouquecer, é importante pensar que assim como a personagem, diante de uma situação de muita pressão e cobrança acaba tendo delírios e alucinações ao ponto de transformar-se no próprio cisne negro. Todos nós estamos sujeitos a essa condição, principalmente se não damos a devida atenção a saúde mental

A sanidade e o desequilíbrio mental bailam um tango numa instável corda bamba. Talvez não tão ao extremo assim, mas é uma relação muito delicada e frágil. Um dia já foi loucura acreditar que a terra era redonda, um desvario completo dizer que os homens poderiam “voar” ou que nós evoluímos de chimpanzés! Provavelmente os nossos ancestrais consideraram louco quem se meteu a inventar a roda! Uma mulher se tornar médica e revolucionar o tratamento psiquiátrico no Brasil através da arte? Lobotomia nela. Louca de pedra! Esperamos que no futuro a loucura, o desvario e o devaneio seja acreditar que um dia trancafiamos e torturamos pessoas por fugirem do padrão de normalidade, que tivemos medo de acolher seu sofrimento e que pensávamos que todo “doido varrido” cantaria “Singing In The Rain” enquanto espanca suas indefesas vítimas.

Loucura mesmo é pensar que em 2017 ainda temos tanto medo da “loucura”, de enlouquecer e tão pouco interesse pela saúde mental e/ou empatia pelas pessoas que na maioria do tempo só precisam ser tratadas como seres humanos.

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Autor: Cristina Santana

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