Comportamento Social, Psicopatologia, saúde mental

De perto ninguém é normal

Se você já ouviu essa frase e se identificou, então esse texto é para você. Se você já ouviu essa frase e achou um absurdo, definitivamente esse texto é para você!

Durante essa semana celebramos o dia da luta antimanicomial e com isso trouxemos a luz um problema que ainda é ignorado ou tratado com preconceito: Os transtornos mentais.

O intuito da frase que intitula esse texto é fazer repensar sobre si mesmo e suas manias, hábitos ou esquisitices que você considera inofensivas e mansas, e também o de olhar com mais tolerância para as pessoas que apresentam essa condição num estado mais severo.

Em pleno século 21, ainda há quem considere os distúrbios mentais como algo sobrenatural, possessão demoníaca, ou mesmo “frescura”, em casos mais brandos, ignorando o fato de que são doenças sérias e que necessitam de tratamento e assistência, fato esse comprovado por levantamentos estatísticos de que mais de 50% da população brasileira que tem esquizofrenia não recebe nenhum tipo de tratamento, e estamos falando de aproximadamente 17 milhões de pessoas. É importante contextualizar que existem diversos tipos de transtornos mentais (depressão, transtornos de ansiedade, de personalidade, de humor, psicóticos, etc.) e todos os que apresentam qualquer um deles sofrem, de forma que não há como comparar um em detrimento de outro, seria desumano tentar mensurar o sofrimento de um determinado grupo, pois é algo muito subjetivo, e não uma competição de quem sofre menos.

Dar ênfase aos casos mais graves de forma alguma minimiza as dificuldades e sofrimento vivenciados por outros, pois a intenção é justamente criar condições onde todos consigam ser respeitados e que recebam a assistência adequada ao seu caso. Como foi dito antes, a loucura ainda é vista de forma discriminatória, o que coloca grande parte dessas pessoas que são cidadãos e têm tantos direitos quanto você e eu, num lugar obscuro da sociedade, considerando que todos nessa condição são pessoas violentas, perigosas e incapazes de conviver em sociedade. As famílias tentam esconder, ou se livrar do problema, com internações em lugares sem a menor condição de prover cuidados necessários, ou abandonando nas ruas, às vezes por não saber como lidar, outras por estarem cansadas demais e sentirem-se sem apoio ou ajuda. Independente dos motivos é fato que a nossa sociedade acaba por excluir tudo que foge à regra, e ainda que já existam serviços de saúde mental e políticas públicas que asseguram os direitos dessa população, ainda estamos longe de realmente resolver o maior problema: o modo como olhamos e enxergamos a pessoa com adoecimento mental. Sim, esse é o maior problema! Pois, somente a partir do momento que conseguirmos mudar o pensamento a respeito dessas pessoas, conseguiremos criar acessos para que se integrem a sociedade da melhor forma possível. Não é fácil, muito pelo contrário, o que acaba por ser uma justificativa para as atitudes desesperadas da família, mas também é fato que a maioria das pessoas com transtornos mentais não é violenta, e desde que tenha um acompanhamento adequado e tome a medicação corretamente, consegue viver dignamente em sociedade.

Seria hipocrisia dizer que é tudo muito simples, e fácil, não é! Há dias difíceis como para todos nós. Há os surtos, momento em que as maiores dificuldades se apresentam de forma intensa, mas a ideia que ainda se tem é que só existem esses momentos de surto, de descontrole e de agressividades. A verdade é que parte do tratamento ajuda a controlar esses momentos, e o restante do tempo, essas pessoas podem exercer as mesmas atividades que qualquer outra, além de estabelecer laços afetivos e criar uma rede de suporte e apoio que os ajudará a passar pelos momentos mais difíceis.

A proposta de tratamento humanizado é justamente esta: tornar acessível a inserção (ou reinserção) e convívio  dessas pessoas com o resto da sociedade e extinguir os serviços cruéis, invasivos e violentos que ainda existem e que remontam a idade medieval. De forma muito otimista esperamos colaborar para criar uma sociedade que consiga acolher de forma respeitosa as famílias, para que consigam lidar com seus familiares, e acolher as pessoas, ajudando-as a receberem tratamento e diminuir o sofrimento. Lembrando que nenhuma delas teve escolha sobre sua condição, muito pelo contrário, ter um transtorno mental reduz drasticamente a possibilidade de escolhas sobre si mesmo. Então, que pelo menos possamos devolver o mínimo de autonomia e dignidade para suas vidas, ou ajudar a diminuir o preconceito de males que podem afetar qualquer um em qualquer momento da vida.

Deixe de lado os estigmas e rótulos, e de ver a “cara feia” da loucura. Pessoas muitos inteligentes, celebridades, grandes gênios apresentam transtornos mentais e ainda assim são respeitados e muitas vezes reverenciados por suas “excentricidades”. Olhemos com mais afeição para as pessoas comuns que estão mais próximas da nossa realidade e que só precisam do nosso respeito e compreensão. Vamos parar de ignorar, ou fingir que essas pessoas não existem, ou de desejar que não existam, pois embora isso não seja dito em alto e bom som, fica subentendido nas entrelinhas, nos olhares repulsivos, no medo exagerado, no “graças a Deus minha família é normal”, e sempre que você sentir um pensamento desses nascendo em você imagine que pode sim acontecer com qualquer um, pois, como disse no começo, de perto ninguém é normal.

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Autor: Cristina Santana

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