O Ser mãe por muito tempo era o ápice da realização da mulher. A maternidade era uma função obrigatória natural condicionada ao ser mulher, era um dom, um presente de Deus. Acredito que toda fêmea tenha condições biológicas de gerar uma nova vida, mas nem todas tem o “dom” ou o desejo de ser mãe. Escolha ou não, ser mãe, não significa que será uma tarefa fácil, claro que tem um lado bonito e gratificante, mas não é um mar de rosas ou um céu de brigadeiro,  afinal todas as nossas escolhas vem acompanhadas em conjunto com responsabilidades, certo nível de sacrifício pessoal, comprometimento e dedicação, então, por que não permitimos que as mães expressem essas dificuldades? Por que julgamos e condenamos com tanta severidade as mães que dizem que a maternidade não é fácil, ainda que seja uma escolha, as que se queixam dos desafios e dificuldades que elas enfrentam, por que até hoje condenamos moralmente as mães solos?

Ao tratar essa questão como exclusiva do universo da mulher, acabamos por eximir a responsabilidade e o mesmo nível de envolvimento, sacrifício, comprometimento e dedicação dos homens, dos pais. Você provavelmente já ouviu que a carga fica sempre para a mulher não é? E por quê? Não seriam os pais igualmente responsáveis pela vida dos filhos?

E a depressão pós-parto? Quando se fala sobre ela? Na gravidez? Nas consultas do pré-natal? No pós-parto? Não, dificilmente se fala sobre esse assunto, se a depressão já é vista com tanto preconceito, imagina vindo de pessoas que deveriam estar em êxtase por terem finalmente cumprido seu sagrado dever como mulher?!

Provavelmente você já ouviu: “Antigamente a vida era mais difícil e não tinha nada disso…”, sim, antigamente as mulheres sofriam caladas oprimidas por um mundo de julgamentos que por si só as desqualificava como mulheres, muito mais se cogitassem se queixar de suas funções como mãe, o tipo de opressão que inferiorizava e condenava a “mãe solteira”, mas não o pai ausente, que ditava como a sociedade deveria tratar essas mulheres, com desprezo, como mulheres imorais, levianas, libertinas (se parece muito com o atualmente!). Mas antigamente ainda chegamos a uma época em que as mães, as boas mães e afortunadas, nem ao menos amamentavam seus filhos, tinham AMAS de leite para tal função, senhoras que nunca trocaram (ou tocaram afetivamente) seus filhos, que delegavam às amas e babás a função de cuidarem e criarem os filhos, e não se queixavam de depressão e, ainda que se queixassem, quem iria ouvi-las? Se nos dias de hoje ainda estamos discutindo e em plena luta por igualdade de gênero, que voz tinham as mulheres para reclamar “antigamente”? E reclamar de um dom que era a única função delas enquanto mulheres, pois, existiam e nasceram somente para isso, gerar e parir!

Porque estamos falando sobre isso? As mulheres modernas descobriram que existem inúmeras outras formas de se sentirem realizadas como mulheres além do Ser Mãe, com isso acabaram percebendo que toda a “magia” da gravidez e da experiência materna tão romantizada e glamourizada é bem diferente na realidade. É na verdade uma revolução na identidade da mulher.

Se você cresce ouvindo sobre as maravilhas quase divinas de ser mãe, sobre o amor instantâneo e imediato, sobre a facilidade do aleitamento materno, tudo numa atmosfera encantada e mágica, feita quase de sonho, como você se sentirá se não experimentar nenhuma dessas sensações tão cheias de encanto e felicidade?

E talvez não sinta, a tristeza aparece algumas semanas depois do parto, vai ficando cada vez mais intensa, as recentes mães  começam a demonstrar apatia e desinteresse, surge a ansiedade e falta de energia que não melhoram conforme o tempo passa. A mulher não vê graça em quase nada, apresenta oscilações de humor ou humor deprimido a maior parte do tempo, perde o prazer e interesse por tudo, podem ficar agitadas ou letárgicas (agitação ou retardo psicomotor), tem a sensação de fadiga, sentimento de inutilidade ou culpa, dificuldade para concentrar-se ou tomar decisões, apresentam alguns traços obsessivo-compulsivos e algumas vezes até pensamentos suicidas.

Isso é uma descrição do que acontece na depressão pós-parto, as características mais frequentes e diferentes do que se passa no imaginário das pessoas, nem toda mulher que sofre de depressão pós-parto tem instintos assassinos em relação ao bebe, o que pode explicar porque há tanto preconceito sobre o assunto. Isso acontece em alguns casos de depressão maior, ou no que chamamos de psicose puerperal, outro transtorno de humor, que ocorre em cada uma ou duas mulheres entre 1000 partos, e afeta principalmente mulheres que já possuem histórico de problemas psiquiátricos, como a bipolaridade, nesse quadro as mãe apresentam delírios e alucinações, é um caso mais grave e severo, mas que pode ser tratado também.

Ainda não se tem uma explicação exata para a depressão pós-parto, mas considera-se que a combinação de fatores hormonais, ambientais, psicológicos e genéticos estejam envolvidos ou favoreçam o surgimento da depressão no puerpério, como por exemplo, a queda brusca de hormônios que ocorre depois do parto, mas é importante que os parceiros, a família e as pessoas que cercam essas mães fiquem atentas à estes sintomas, pois, quanto antes iniciar o tratamento, melhor para mãe e  para o desenvolvimento do bebê .

A melancolia pós-parto é comum para a maioria das mulheres que deram a luz recentemente, uma questão puramente fisiológica, depois do parto, os hormônios diminuem e ainda estão “loucos”, é normal, dura de sete a dez dias, mas ainda assim, mesmo que a maioria sinta, quase nenhuma vai dizer que não se sente tão feliz e radiante, por medo de ser julgada, por medo de ouvir que não amam seus filhos o suficiente e, de novo, condenamos as mães, e elas sentem-se culpadas por “não conseguirem” vivenciar o sonho de maternidade perfeita do qual ouviram falar a vida inteira.

De tempos e tempos, celebridades, atrizes, jornalistas, cantoras, blogueiras, mulheres usam as redes sociais para compartilhar suas experiências como mães. Nas manchetes lê-se: Desabafos, relatos sinceros sobre a maternidade, e isso é positivo, pois o alcance dessas mulheres é muito grande, a visibilidade é maior, elas conseguem estimular o dialogo, serão ouvidas por um grande número de pessoas, mas ainda assim, não é suficiente, porque não são somente as mulheres famosas que enfrentam essas situações, as dificuldades da amamentação, a frustração de expectativas idealizadas do Ser Mãe, os desafios do puerpério, o corpo que já não é o mesmo e que precisa de tempo para lidar com a sobrecarga física e emocional. Mães comuns, mães bem resolvidas, mães que terão que assumir sozinhas a criação dos filhos, todas as mães, algumas mais outras menos, mas todas enfrentarão dificuldades, e não poder expressar esses sentimentos gera insegurança, sofrimento, e pior, culpa e tudo isso contribui para o adoecimento dessas mães.

Às vezes o amor não é instantâneo, mas ele cresce e é alimentado a cada dia em cada toque, em cada interação com o bebe, vocês estão se conhecendo, se descobrindo, se apaixonando um pelo outro, e isso não faz de ninguém uma mãe ruim, nem deve ser motivo de culpa. Muitas vezes o Ser Mãe é um ser muito solitário, então pais, parceiros, avós, amigos, famílias ofereçam apoio, não aumentem as angústias, porque a maior crítica já é ela mesma.  Mães também precisam ser cuidadas, amparadas e até de um colo vez ou outra, algumas vezes só precisam de uma boa noite de sono, de um tempinho sozinha ou com seus pares, não precisam que seus parceiros ajudem e sim que dividam o fardo, então, PAIS assumam a paternidade no papel e na função, PARTICIPEM igualmente e cuidem dos seus filhos!

Mães NÃO precisam de ninguém apontando o dedo e lhes dizendo o que devem ou não fazer, que estão erradas nas escolhas, que devem deixar seus filhos chorarem, que colo acostuma mal, que sua aparência não está das melhores, o quanto devem amar seus filhos e nem o que é o amor materno, cada uma vai descobrir ao seu tempo, no seu ritmo, na relação diária com seus bebês, deixemos que as mães aprendam a serem mães, que tenham dúvidas e não se angustiem por pedir ajuda já prevendo o julgamento. Dizem que o amor de mãe é incondicional, então porque insistimos em impor as condições?

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Autor: Cristina Santana

 

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