Comportamento Social, Psicopatologia, Saúde Emocional

Remediando a vida – Nem sempre a solução vem em pílulas

Você provavelmente já ouviu: “A diferença entre um remédio e um veneno é a dose”, e de fato existe essa sutil diferença, principalmente no atual contexto social que vivemos, onde tudo é para agora e para já, tudo é fast, inclusive a vida, e infelicidade é algo temerário, você pode ser tudo que quiser, menos infeliz. Mas essa tal felicidade não pode ser qualquer uma também, tem que estar dentro dos padrões de grandeza e consumo. Não necessariamente você tenha que experimentar ou vivenciar um estado de felicidade, mas tem que obrigatoriamente ser registrada, ‘photoshopada’, publicada, compartilhada. De que adianta estar feliz, se mais ninguém souber? Então, você não está!

As pessoas vivem um constante medo do sofrer, de sentir-se angustiada. Tudo pode trazer sofrimento excruciante, não só dores, mazelas ou patologias, mas um estilo de vida que está longe do seu alcance, uma tecnologia que ainda não lhe é possível, etc. Nunca se tem o suficiente e, com isso, cria-se essa angústia do querer sempre mais e mais… E se você não tiver o “mais” imediatamente, você vai sofrer, então, você espertamente (já prevendo esse quadro) recorre a uma pílula milagrosa e fica bem! Mas, você continua sem ter alcançado o tal “mais”… Tudo bem, já tem um remedinho para não sofrer por isso mesmo…

É como se anestesiar da vida com uma pílula de felicidade; Ou de inteligência; Ou para ter o corpo em forma; Melhorar o desempenho sexual. Tem pílula até para melhorar o espírito! Angústia, frustração, desilusão, raiva e ansiedade?! Nunca mais! É o medo do próprio medo. Por medo de vir a sentir qualquer sintoma ou patologia já se medica antes, uma distorção perigosa da ideia de prevenção e promoção de saúde.

A mídia também propaga a ideia de felicidade instantânea. As propagandas de remédios sempre apresentam o mesmo roteiro: dia nublado, pessoa mal-humorada, doente, apática, indisposta – Ingestão do medicamento – O sol brilha, a pessoa está sempre feliz e bem disposta, melhora o humor, o trabalho. Até namorado (a) você consegue! Simples e mágico assim! E nós sabemos que até para tratar um resfriado é necessário repouso e leva alguns dias para que você esteja 100% de novo, o organismo precisa de tempo para se reestabelecer. É importante entender a diferença entre cura e redução de sintomas, e alguns medicamentos tem exatamente esse efeito, o alivio, um balsamo, não uma cura de fato. Suprimir os sintomas mais severos como no caso da depressão, faz toda a diferença entre autoestima, o bem-estar físico e mental, no desejo de continuar vivendo, na qualidade de vida dessa pessoa. Fazer seu filho tomar Ritalina para que você tenha mais sossego e não precise ter tanto trabalho brincando e educando não é cura, não faz diferença e não diminui sintoma nenhum, só suprimi a vida dele e, veja bem, ser criança não é sinônimo de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). Crianças sempre serão mais agitadas e bem dispostas que um adulto, elas têm muita energia e necessitam brincar, correr, pular e isso não significa necessariamente que ela tenha um problema. Se você tem filhos e espera que sejam sempre quietos e tranquilos, e que a infância seja letárgica, então, realmente quem tem um problema é você.

O paciente chega ao consultório com uma queixa de fadiga, falta de apetite e que às vezes se sente melancólico, e antes mesmo que se faça uma investigação mais profunda sobre causas orgânicas, já sai com a cura milagrosa. Alguns médicos nem sequer realizam o exame físico do paciente, que talvez não saiba a diferença entre melancolia e tristeza, ou ansiedade. Aliás, relatar que sentiu tristeza é um código quase que automático para depressão. Se disser “insônia” é ansiedade! E dá-lhe benzodiazepínico. Um Rivotril e o problema sumiu! Quando, algumas vezes, trocar o travesseiro já seria suficiente.

Entenda a questão: Não é que não se deva prescrever ou ingerir um antidepressivo para casos de depressão, o que em alguns casos é imprescindível, e pode sim salvar a vida de pessoas em estado grave. Porém, o uso indiscriminado para quadros mais leves, ou que a princípio ainda não exigem a intervenção farmacológica, só fortalecem a ideia de que a receita para a felicidade está a uma consulta de distância. Assim, algumas pessoas recorrem a essa fórmula para tratar de questões do dia a dia, para se adaptarem melhor a rotina dos seus dias, tanto que estudos já confirmam o crescente uso de remédios psicoestimulantes (Ritalina, por exemplo) como uma estratégia para passar em concursos públicos, ou para ter mais disposição no trabalho. E o mesmo acontece com ansiolíticos, analgésicos e todo tipo de medicamentos de fácil (e nem tão fácil) acesso.

Os medicamentos são importantes e necessários quando há realmente um distúrbio fisiológico ou patologia, não só para alívio e remissão de sintomas. Alguns psicotrópicos vão além e proporcionam qualidade de vida as pessoas que se encontram em profundo sofrimento psíquico, mas nada justifica que busquemos equilíbrio somente nos medicamentos, que são drogas também, e, como toda substância, podem causar dependência.  O natural é que busquemos ajuda. Se você tem problemas ou aflições da vida que não sabe como explicar e sente que está perdendo o controle, o uso de remédios sem necessidade real ou indicação médica adequada não vai devolver o controle da sua vida, ao contrário vai proporcionar um controle superficial, pois assim que acabar o efeito da medicação, o problema vai continuar lá e você terá que lidar com ele ou viver uma vida artificial, sob constante efeito de remédios.

Lembrem-se: Nem toda tristeza é depressão, nem toda ansiedade é ruim. Estar fora dos padrões não te faz inferior e a saúde mental é delicada. E, em caso de dúvida, antes de se autodiagnosticar procure ajuda profissional e de confiança.

PsicON – A Psicologia conectada com você

Autor: Cristina Santana

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