Já não é de hoje que ouvimos falar sobre as influências das tecnologias a serviço do entretenimento de crianças e adolescentes. Começamos com a televisão e o videogame, passando pelo avanço das conexões de internet invadindo as casas através de computadores, tablets e smartphones. Isso sem falar na grande cartela de redes sociais, contribuindo mais um pouquinho para a nossa procrastinação de afazeres e responsabilidades.

O objetivo deste texto não é só dizer o quanto esse conteúdo é prejudicial às nossas crianças e adolescentes e explanar sobre os efeitos em longo prazo que as mídias e as tecnologias exercem sobre nós, mas também, propor uma reflexão acerca dos comportamentos aprendidos, principalmente em casa, pelo modelo dos pais.

As queixas mais comuns que chegam aos consultórios de psicologia, de modo geral, são dependências de uso de aparelhos tecnológicos, redes sociais e jogos eletrônicos. Os efeitos são válidos da mesma maneira para crianças, adolescentes e adultos e os comportamentos e emoções gerados, entre eles, a obsessão e a compulsão são equivalentes no cérebro ao da dependência química, pois acionam os mesmos mecanismos e neurotransmissores. Os efeitos negativos do uso digital indiscriminado são: Obesidade e transtornos alimentares, problemas relacionados ao sono, comportamentos agressivos, comportamentos antissociais, hiperatividade, problemas de aprendizagem, atenção e concentração, exposição de imagem pessoal, cyberbulling, contato com conteúdos sexuais, entre outros.

Entre as maiores preocupações dos pais, a exposição de conteúdos violentos e limites de tempo são os fatores que mais causam discussões. Os filhos querem jogar jogos de luta e ficar o dia inteiro em frente ao computador. Os pais sentem que não estão seguindo o correto, porém cedem. Segundo a APP (Associação Americana de Pediatria) o ideal é que esse período não ultrapasse 2 horas diárias para fins recreativos, sempre com o acompanhamento dos pais e controle de conteúdo. E que, até os dois anos de idade, a criança não tenha nenhum contato com meios tecnológicos.

Sim, sabemos o quanto é difícil. Quase impossível que isso aconteça na sua casa e na casa de milhares de pessoas. Não se sinta mal se isso não acontece como deveria ser. Mas, é importante saber qual a sua parcela de responsabilidade na aprendizagem de comportamentos dos filhos.

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“Qual sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?” (Freud)

Seja em casa, na escola ou no meio social escutamos sempre as mesmas comparações: “ele é desatento e desastrado”, “ele é briguento porque joga ‘aquele’ jogo violento”, “ele bate nos colegas, porque fica em frente ao videogame o dia inteiro”, ou mesmo a clássica, “eu não posso com a vida do meu filho”. Devemos sim ressaltar a importância e impacto sobre os comportamentos de crianças e adolescente que os games e mídias sociais geram, mas parece que sempre o grande vilão é o ‘aparelho’. Alguém já parou para pensar: E nossa responsabilidade social? E o próprio cotidiano? E a relação com os pais?

Se antes a televisão era o grande vilão dos impactos produzidos no nosso cotidiano, hoje temos uma cartela de vilões, com os mais variados objetivos. Na real, é que da mesma forma que um jogo violento pode influenciar no comportamento da criança, os pais o dia inteiro olhando para uma tela acesa é próprio modelo de comportamento para os filhos!

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Alguém já assistiu a um filme de super-heroi e sentiu vontade de ser como ele? Saiba que você não está sozinho! 😀 As crianças aprendem por modelo de comportamento e o que as diferenciam do adulto é a maturidade de discernir o que é real e o que é imaginário, fantasioso.

Tendo como referência a Teoria da Aprendizagem Social de Albert Bandura, cuja aprendizagem ocorre a partir da imitação de modelos, qualquer fato, coisa ou pessoa pode se tornar uma representação social para o indivíduo, ou seja, os jogos de conteúdos agressivos podem sim ser modelos de comportamento e hábitos semelhantes.  Da mesma forma, os pais e familiares representam estes modelos de aprendizagem de condutas. De que adianta privar totalmente as crianças de jogarem se, por exemplo, dentro de casa o pai é agressivo com a mãe ou com a própria criança? Falta de carinho, também pode desencadear condições como violência e agressividade. Tudo isso faz parte de algo chamado maturidade. O quanto o seu filho está pronto para ver e ouvir algo e saber discernir de sua própria realidade?

Compreende-se que a preferência por jogos violentos é um método alheio de lidar com o que não é compreendido no fenômeno. Ou seja, o objetivo aqui não é negar o fato de que jogos e as mídias sociais possam dessensibilizar ou reforçar o comportamento de um usuário imaturo, mas supor que a preferência acontece pelo fato de buscarem nos meios midiáticos, formas de lidar virtualmente com aquilo que ele não compreende no seu mundo real.

Outro exemplo comum é o uso indiscriminado do álcool. Estudos apontam que os adolescentes bebem cada vez mais cedo, seguindo o exemplo dos pais, já que em casa o uso do álcool é considerado normal. Não estamos dizendo aqui que você não pode beber, assistir um filme violento ou interagir nas redes sociais. Mas seu filho provavelmente não vai ler um livro se você está sempre com um copo de cerveja na mão! Os hábitos são aprendidos e o diálogo sempre é a melhor forma de resolução. Um caminho fácil e certeiro é oferecer outras formas de entretenimento e diversão para as crianças e adolescentes: passeios, brincadeiras, parques, uma conversa sobre como foi o seu dia… É simples e habitual. Fácil, fácil de ser executado.

Outro item essencial é a classificação indicativa. Ela existe e não está lá apenas de enfeite! E isso vale para os jogos, filmes, novelas e internet. Os pais devem sim impor limites e, principalmente, conversar com os filhos sobre o que é melhor e mais seguro para ele. Devem chegar a um comum acordo, respeitando a maturidade dos filhos e assumindo de fato sua contribuição e papel no processo de aprendizagem e representação social.

O entretenimento e lazer agora são tecnológicos, disso não tenhamos dúvidas. Os computadores, videogames, celulares e tablets são as chamadas “babás eletrônicas”. Dessa forma, a interação social está protegida (em casa, na escola) e, aparentemente, longe do mundo violento. Mas, tudo isso parece isentar as responsabilidade dos pais. Ora, senhores pais, quando iremos assumir nossa parcela de culpa e responsabilidade? Qual é o tipo de aprendizado que estamos transmitindo? Qual modelo estamos representando? Muitos pais e mães deixam de dar atenção aos filhos, porque estão vidrados no ‘Facebook’. O mundo real é muito mais gostoso, intenso e, o melhor: É seu!

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Autor: Bruna Gagetti

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