Cidadania

Deficiências – Especial é ser gente!

Ele (a) é especial, nasceu com problemas. É doente! Inválido, Incapaz… Estigmas que habitualmente ouvimos como referência à pessoa com deficiência.

Sim, ele (a), como todos nós, somos especiais. Não necessariamente pela deficiência, ao contrário, uma deficiência não te premia com uma ‘estrelinha dourada’ simbolizando o quanto você se tornou especial. Assim como todos nós temos necessidades especiais independente de ter ou não uma deficiência. Tão pouco é correto dizer que a pessoa porta uma deficiência, uma vez que o porte indica uma condição de escolha ou aberta à mudança. Na maioria das vezes, a deficiência é uma condição permanente, o que não significa que a pessoa com deficiência seja incapaz. Os últimos jogos paralímpicos realizados no Brasil são o exemplo mais recente de como existem eficiências no universo que compõem as mais variadas deficiências. Infelizmente no nosso país, na nossa cultura e sociedade de modo geral a pessoa com deficiência ainda encontra muita dificuldade para ter acesso a uma estrutura que favoreça e potencialize as suas habilidades e eficiências, dentro dos limites que a sua deficiência impõe.

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Jogos Paralímpicos Rio 2016 – Recorde de público com 167 mil pessoas em um de seus dias ganhou destaque mundial

Para melhorar esse paradigma é necessário enxergar em primeiro lugar o indivíduo, a pessoa com suas limitações. Existe um indivíduo com uma deficiência e não uma deficiência como definição de quem ele é, do que pensa ou sente.

Para esclarecer o início do texto, o modo correto se referir as pessoas com as mais variadas deficiências é enfatizando que a pessoa, o ser humano sempre virá à frente da deficiência, portanto, usa-se o termo Pessoa com Deficiência. Qualquer outro termo fere a dignidade da condição humana, tudo que ressalte a deficiência em si e não a pessoa, só fortalecem os estigmas pejorativos e a discriminação.

Uma pessoa com deficiência nasce com todos os direitos que todas as outras, embora nem sempre esses direitos sejam respeitados ou no mínimo levados em consideração. A família, por exemplo, na ânsia de cuidar e proteger, muitas vezes, atribui um papel de vítima, de fragilidade, dependência e necessidade de cuidados eternos, o que dificulta que se adquira autonomia sobre o próprio corpo, sobre seus desejos, sobre suas perspectivas e o seu lugar social. Ainda que a intenção seja de ajudar ou facilitar, essa superproteção e controle da família sobre a outra pessoa interferem negativamente no desenvolvimento, autonomia e qualidade de vida da mesma.

Investir na formação e inserção da pessoa com deficiência na sociedade deve ser um processo iniciado dentro da família. Consultar, discutir e informar quais decisões estão sendo tomadas e, principalmente, entender que o outro tem condições para tomar as próprias decisões e deve ser estimulado a fazer escolhas, pois ninguém melhor que ele para entender o impacto das ações em sua vida.

É só sobre a ótica de quem tem uma deficiência que se deve pensar no que é o melhor, como bem exemplifica a frase “Nada de nós, sem nós” – Que foi o lema da convenção dos direitos da pessoa com deficiência, que simplesmente significa ouvir as demandas dos mais interessados, dar voz, torná-los atuantes e protagonistas na luta por seus direitos.

Uma concepção que também deve ser corrigida é a visão do deficiente como doente. A deficiência não é uma doença, embora muitas vezes seja causada por uma, mas é importante diferenciar, uma doença pode até causar uma deficiência, logo, a deficiência em si é uma consequência, uma condição resultante e não a doença ou uma nova manifestação da mesma.

Motivados por essas idealizações de fragilidade, em algumas circunstâncias, pessoas movidas quase sempre com boas intenções, acabam tomando a frente e tentando fazer por eles, e ainda que o intuito seja o de ajudar nem sempre essa ajuda é bem-vinda ou necessária, uma vez que pode atrapalhar um momento de desenvolvimento pessoal, ou mesmo uma invasão a autonomia individual, portanto não faça por eles, ofereça, não imponha o que imagine ser o melhor. Lembre-se sempre de perguntar se há necessidade de ajuda e respeite quando não houver.

O melhor jeito de ajudar é respeitando, reconhecendo a pessoa com deficiência como parte integrante da sociedade. É lutando juntos e exigindo igualdade de oportunidades e condições através da inclusão, da acessibilidade, da mobilidade e comunicação. Essas são palavrinhas que sempre se repetem nos discursos sobre o universo das deficiências, sem que se aprofunde na importância do significado de cada uma delas, porém, são mais que palavras, são ações essenciais quando se trata de favorecer a formação de uma sociedade mais inclusiva que reconhece a diversidade e as necessidades específicas, promovendo a construção de espaços físicos, sociais e psicológicos para que realmente haja igualdade. Acessibilidade não se trata só de construir rampas, são importantes claro, mas não são a única alteração a ser feita. É necessário fazer adaptações que possibilitem a TODOS o deslocamento pelos espaços sem constrangimentos ou dificuldades, o acesso a diferentes conteúdos e informações, a interações com o meio. Inclusão também não se trata de ocupar simbolicamente um lugar e recebendo tratamento especial, incluir, integrar é realmente fazer parte, seguir regras, horários, cumprir com os deveres pertinentes a todos sem distinção, sem receber benefícios por uma única característica em particular, pois de fato a deficiência representa uma característica especifica, uma única parte que não representa o universo inteiro que nos faz pessoas, como também é inaceitável ser prejudicado pelo mesmo motivo.

Então que possamos seguir nessa direção e criar condições e estruturas para que essas pessoas possam de fato ocupar o lugar de aluno, de aprendiz, de funcionário, de colega, de cidadão, de PESSOA!

PsicON – A Psicologia conectada com você

Autor: Cristina Santana

 

 

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