A cultura de estupro não é um termo novo e nem foi inventado nas mídias digitais e/ou redes sociais, que é aonde vem sendo cada vez mais utilizado e é fervorosamente aclamado como uma reivindicação moderna. Há indícios que tenha sido usado pela primeira vez na década de 70, por um grupo de manifestantes dos direitos das mulheres. “Saiu de moda”, caiu em desuso e retornou agora com maior força e ênfase, como uma bandeira de luta, mas, afinal de contas, o que significa cultura de estupro?

A cultura do estupro se refere ao modo como a sociedade culpabiliza vítimas de assédio e violência sexual e acaba por normalizar ou naturalizar hábitos, comportamentos e a desqualificação da mulher, justificando a violência contra elas. A luta pelo fim da cultura de estupro não é nova, não se trata de uma tendência, ou de “estar na moda”. Faz-se cada vez mais necessária e se justifica por exigir o básico, algo muito simples, respeito e igualdade para que as mulheres no geral, assim como mães, irmãs, esposas, filhas, namoradas, tias, primas, toda e qualquer mulher não sofra nenhum tipo de violência por simplesmente ser mulher.

Faça o seguinte exercício: Pense em uma única mulher que seja muito importante em sua vida. Agora pense: Como você deseja que ela seja tratada? Vá mais longe ainda, como VOCÊ gosta de ser tratado? Como você, homem ou mulher, espera ser respeitado e ter garantido seus direitos como pessoa? Não deveria ser assim para todos nós?

Mulheres vítimas de violência sexual ou assédio, muitas vezes se calam, sofrem com danos físicos e psicológicos e carregam essas dolorosas cicatrizes a vida toda, porque a sociedade acaba impondo a culpa às vítimas e não ao agressor. Infelizmente isso acontece há muito tempo e continua acontecendo. Aquelas que têm coragem de denunciar acabam sofrendo duplamente, uma vez que suas denúncias são recebidas com dúvidas, desconfianças, e sem credibilidade, seja pela polícia, por profissionais de saúde que as examinam, pela família ou por outras mulheres. E então se deparam com os ‘mas’: “Mas você provocou?”; “Mas você não deveria se vestir assim”; “Mas você permitiu” e etc. NÃO! Não existe nenhum ‘mas’. As vítimas NÃO têm culpa e nenhum ‘mas’ justifica qualquer tipo de violência.

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Chega de violência contra as mulheres!

O Brasil ocupa a quinta posição mundial na taxa de homicídios de mulheres, a cada 11 minutos uma mulher sofre violência sexual no nosso país. Ao término desse texto mais uma terá sofrido essa violência, pode acontecer ao seu lado, pode ser com alguém que você conheça e, na pior hipótese, a próxima vítima ou algoz pode ser você. As justificativas são sempre as mesmas, roupas inadequadas para uma mulher decente, comportamentos inadequados para uma mulher decente, estar no lugar errado e na hora errada. Nascer mulher já é quase que pedir por isso.

Chegamos ao ponto de não conseguir mais perceber a violência como violência. Quando nos deparamos com notícias de crimes contra mulheres como estupros coletivos na Índia, mutilações genitais na África, apedrejamento em praça pública, casamentos arranjados de crianças, entre outras, a primeira reação é choque, é condenar tamanha barbárie, porém, são atrocidades que acontecem longe dos nossos domínios, nada poderíamos fazer para intervir nessas situações, e ainda assim, condenamos a filha do vizinho por vestir roupas curtas. Seu comportamento provocativo é um insulto aos homens, ela precisa ser contida e aprender a ser decente. Se ela se manifesta e é contra a desigualdade de gêneros, então pronto, temos mais uma ‘FEMINAZI’, outro termo muito em voga e usado pejorativamente como referência às mulheres que se apresentam como feministas. Mas, só pra esclarecer mais uma vez, o feminismo não é, nem pode ser um sinônimo de machismo, ou de superioridade feminina, cada um atribui a si o rótulo que quiser. O propósito, no entanto, é a busca por igualdade e respeito, e exterminar a violência contra a mulher, por ela simplesmente ser mulher, e ainda assim criar um termo associando ao nazismo (pois é essa a referência que o “nazis” remete) é uma ofensa grave.

Homens não são sempre vilões, eles também são vítimas de idealizações e expectativas infundadas. Mulheres não são obrigatoriamente coitadinhas donzelas indefesas, porém, homens não morrem a cada onze minutos apenas por serem homens. Eles não são, nem nunca foram classificados como sexo frágil. Homens não recebem cantadas ofensivas só por exercerem o direito de ir e vir. Ao andarem na rua, homens não são desqualificados intelectualmente ou pela cor do cabelo, eu pelo menos nunca ouvi um “loiro burro” em relação a um homem. E ser fisicamente mais forte que uma mulher também não é, nem nunca será uma justificativa para intimidar, ameaçar e em hipótese alguma agredir. Mulheres não desejam ser superiores aos homens, não é uma competição, tão pouco estamos em guerra, o que nós mulheres desejamos é só, e tão somente, RESPEITO e IGUALDADE.

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Autor: Cristina Santana

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