O que você vê ao se olhar no espelho todo dia? Você está satisfeito consigo mesmo? Com seu corpo e aparência? Sente-se bem? Mudaria alguma coisa? Ou prefere evitar qualquer superfície que possa revelar seu reflexo? Sente-se feio? Não tem o corpo da moda? O que faria para alcançar o corpo perfeito? Daria sua vida por isso?

Todas essas questões estão além da vaidade e do cuidar-se de modo prazeroso, por isso, convidamos vocês a refletirem sobre como isso afeta a vida de cada um ou de pessoas próximas, e se existe um limite.

Não é novidade que somos impelidos a seguir tendências e padrões de beleza que se modificam ciclicamente, e não só a moda, a alta costura, os concursos de beleza, mas uma infinita série de imposições de qual tendência devemos seguir ou alcançar para nos ajustarmos ao que se categoriza como bonito, advinda de diversas mídias que estabelecem um ideal de perfeição do corpo como uma meta a ser alcançada para que sejamos felizes, caso contrário estamos condenados ao limbo por não sermos bonitos o suficiente, e como acontece frequentemente com imposições ou padrões sociais. Essas exigências acabam por colaborar para o surgimento de alguns distúrbios, nesse caso, a percepção distorcida da autoimagem.

Para entender melhor do que estamos falando, o Transtorno Dismórfico corporal, Dismorfia ou Dismorfofobia é um quadro conhecido há bastante tempo, tendo sido descrito a primeira vez em 1886, pelo psiquiatra italiano Enrique Morselli, onde observou pacientes que apresentavam um profundo sentimento de feiura ou acreditavam apresentar defeito físico, ainda que tivessem boa aparência.

Em muitos dos casos que chegam a ser diagnosticados, é comum o relato de pessoas que sofreram com críticas, acusações, deboche e provocações com relação aos seus corpos na infância e adolescência, assim como comparações que os inferiorizava e enaltecia o que era bonito, o que deveriam ser, o que acaba por influenciar para que tenham uma falsa percepção de si mesmos, uma visão distorcida do seu corpo e uma preocupação obsessiva com uma imperfeição que é ínfima, como uma pintinhas em alguma parte do corpo, ou só existe para ele mesmo. A maior incidência desse quadro é em mulheres e o início se dá ainda na adolescência, frequentemente por volta dos 12 anos, podendo acompanhá-las a vida toda, uma vez que não se encontram soluções para questões emocionais na ponta de um bisturi.

A autoaversão pela própria imagem causa intenso sofrimento físico e psíquico, compromete a vida de modo geral e pode incapacitar, tamanho desconforto e vergonha faz com que as pessoas não consigam sair de casa para trabalhar, não se relacionem e gastem grande parte do seu tempo tentando esconder ou corrigir um “defeito”, além de, muitas vezes, estar acompanhado de um transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e propensos a outros agravos que podem surgir  como transtornos alimentares, depressão e tentativas de suicídio, em casos mais graves.

Pessoas que apresentam esse transtorno acabam realizando suscetíveis intervenções cirúrgicas e procedimentos estéticos que nunca são realmente satisfatórios, porque imaginam que a solução para o problema seja apenas estética, ainda que a pessoa não necessite de nenhum tipo de intervenção, seja elogiada por outras pessoas e não apresente nenhum defeito físico. Não há problema algum em cuidar-se, cuidar da aparência, mudar algo que incomoda para melhorar a autoestima, querer estar bem e sentir-se bem, porém esse não pode ser o único e exclusivo objetivo de vida.

Na dismorfia esses cuidados nunca são suficientes e as pessoas nunca se sentem bem realmente, a aparência nunca é motivo de bem-estar, não existe um sentir-se bem com sua imagem, como se não existisse nada realmente bonito em si mesmo, esse tipo de comportamento, sentimento incessante de vergonha, repulsa pelo próprio corpo, essa preocupação patológica com a aparência, significa que existe um quadro psiquiátrico que requer cuidado, tratamento e atenção, onde a psicoterapia aliada ao tratamento psiquiátrico vai promover melhoras no relacionamento consigo mesmo e ajudar a lidar com as emoções.

Muitas vezes, esses quadros são negligenciados, pois o modo como cada um se vê é muito subjetivo e não corresponde ao modo como outras pessoas vão vê-lo, o que acaba por gerar dúvidas em relação a seriedade dos sintomas e ao sofrimento da pessoa. Se você se identifica com esses comportamentos ou conhece alguém que apresente essa sintomatologia, não julgue como algo fútil, ou superficial, procure ajuda e faça as pazes com seu corpo, viva bem e sinta-se feliz aprendendo a reconhecer seus pontos fortes e a trabalhar com os pontos fracos a seu favor, encontrando e reconhecendo a beleza que existe em você!

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Autor: Cristina Santana

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